sexta-feira, 13 de março de 2020

8 Coisas que o Coronavírus Deve Nos Ensinar.





Eu acordei nesta manhã em Nápoles, a terceira cidade italiana que foi colocada em quarentena. Aglomerações publicas, incluindo cultos das igrejas, foram proibidos. Casamentos, funerais, e batismos foram cancelados. Escolas e cinemas, museus e academias, estão fechados. Minha esposa e eu acabamos de retornar de uma ida as compras que nos tomou duas horas na fila para o caixa. A Itália, correntemente, tem reportado os maiores números de casos de coronavírus fora da China: 9.172 casos e 463 mortes. Como resultado, 60 milhões de pessoas tem sido orientadas a permanecerem em suas casas, saindo somente em casos absolutamente necessários.
Como cristãos, como respondemos a tal crise? Resposta: com fé e não medo. Nós devemos olhar para o olho da tempestade e perguntar: Senhor, o que o Senhor espera que eu aprenda disso? Como o Senhor quer me mudar?
Aqui estão 8 coisas que todos nós deveríamos realmente aprender, ou reaprender, deste coronavírus.

1. Nossa Fragilidade

Essa crise global está nos ensinando o quão fraco somos como seres humanos.
No momento em que escrevo, 98.429 casos de coronavírus foram reportados mundialmente, causando 3.387 mortes. Nós estamos tentando fazer o nosso melhor para conter propagação. E, na maioria das vezes, eu acho que somo confiantes demais do eventual sucesso.
Agora imagine um vírus ainda mais agressivo e contagioso do que coronavírus. Encarado como uma ameaça, nós podemos prevenir a nossa extinção como espécie? A resposta é claramente não. É fácil esquecer, mas os humanos são fracos e frágeis.
As palavras do salmista são verdade: “15Quanto ao homem, os seus dias são como a relva; como a flor do campo, assim ele floresce; 16pois, soprando nela o vento (ou COVID-19), desaparece; e não conhecerá, daí em diante, o seu lugar.” (Salmo 103.15-16)
Como compreendemos essa lição sobre nossa fragilidade? Talvez lembrando que não devemos tomar vida nesta terra como garantia. “ 12Ensina-nos a contar os nossos dias, para que alcancemos coração sábio.” (Salmo 90.12)

2. Nossa igualdade

Esse vírus não respeita limites étnicas ou fronteiras nacionais. Não é um vírus chinês; é nosso o vírus. Está no Afeganistão, na Bélgica, no Cambodia, na Dinamarca, França, América – 77 países, e contando, já foram contaminados pelo coronavírus.
Nós somos todos membros da grande família humana, criados a imagem de Deus (Gn. 1.17). A cor da nossa pele, o idioma que falamos, nossos sotaques, e nossas culturas não são levadas em consideração aos olhos de uma doença contagiosa.
Em nosso sofrimento, na dor de perder um ente querido, nós somos completamente iguais – fracos e sem respostas.
Aos olhos do mundo nós somos todos diferentes; aos olhos do vírus, nós somos iguais.

3. Nossa falta de controle

Todos nós amamos estar no controle. Nós fantasiamos que somos os capitães do nosso destino, mestres da nossa sorte. A realidade é que hoje, mais do que antes, nós podemos controlar partes significantes das nossas vidas. Nós podemos controlar o aquecimento e a segurança da nossa casa remotamente; nós podemos movimentar o dinheiro ao redor do mundo com um clique em um aplicativo; nós podemos controlar nossos corpos através de treinamento e de medicações.
Mas talvez esse senso de controle seja uma ilusão, uma bolha que o coronavírus estourou, revelando a realidade que nós não estamos realmente no controle.
Agora, aqui na Itália, as autoridades estão tentando conter a propagação desse vírus fechando, abrindo e fechando novamente as escolas de nossos filhos. Eles têm a situação sob controle?
E nós? Armados com nossos sprays desinfetantes, nós tentamos reduzir os riscos de sermos infectados. Não há nada de errado em fazermos isso. Mas, nós estamos no controle da situação? Dificilmente.

4. A dor que compartilhamos em sermos excluídos

Há alguns dias uma membro de nosso igreja viajou para o norte da Itália. No seu retorno para Nápoles, ela foi excluída de um jantar com colegas de trabalho. Disseram a ela que seria melhor para ela não comparecer devido as suas recentes viagens ao norte, mesmo eles sabendo que ela não tinha estado perto de nenhuma área de risco e não estava mostrando nenhum sintoma do coronavírus. Obviamente, esse distrato a machucou.
Um proprietário, de 55 anos de idade, de um restaurante no centro de Nápoles foi recentemente colocado em quarentena. Tendo dado positivo os testes para COVID-19, diziam que ele se sentia relativamente bem fisicamente, mas que ficou triste pelas reações de muitos de seus vizinhos: “O que mais o machucou não foi o resultado positivo para o coronavírus, mas a maneira que ele e sua família foram tratados pela cidade em que eles viviam.” (Jornal Matutino II, 2 de Março de 2020).
Ser excluído e isolado não é uma coisa fácil, tendo em vista que fomos criados para relacionamentos. Mas muitas pessoas, agora, estão tendo que lidar com o isolamento. É uma experiência que a comunidade leprosa dos dias de Jesus conhecia muito bem. Eram forçados a viverem sozinhos, andando pelas ruas de suas cidades gritando: “Imundo! Imundo!” (Confira Lev. 13.45).

5. A diferença entre medo e fé

Qual é a sua reação para com essa crise? É fácil ser dominado pelo medo. É fácil ver o coronavírus em todo o lugar que eu olho: no teclado do meu computador, no ar que eu respiro, em cada contato físico e em cada esquina, esperando para me infectar. Nós estamos em pânico?
Ou talvez essa crise está nos desafiando a reagir de maneira diferente – com fé e não com medo. Não fé nas estrelas ou em alguma deidade desconhecida. Em vez disso, fé em Cristo, o bom pastor que é também a ressurreição e vida.
Certamente somente Jesus está no controle desta situação; certamente somente ele pode nos conduzir através desta tempestade. Ele nos chama para confiar e crer, para ter fé e não medo.

6. Nossa necessidade de Deus e nossa necessidade de orarmos

No meio de uma crise global, como nós podemos como indivíduos fazer a diferença? Frequentemente nós nos sentimos pequenos e insignificantes.
Há algo que podemos fazer. Nós podemos clamar ao nosso Pai Celestial.
Ore pelas autoridades que governam nossos países e cidades. Ore pelos times médicos que estão tratando a doença. Ore pelos homens, mulheres e crianças que já foram infectados, pelas pessoas que estão com medo de deixar suas casas, por aqueles que vivem nas áreas de risco, por aqueles que estão nos grupos de risco com outras doenças e pelos idosos. Ore para que Deus possa nos proteger e guardar. Ore a Ele, para que ele possa nos conceder misericórdia.
Ore também para que o Senhor Jesus retorne, que ele possa voltar e nos levar para a nova criação que ele tem preparado para nós, um lugar que não haverá mais lagrimas, nem morte, nem luto, nem choro ou dor (Ap 21.4)

7. A vaidade de muitas coisas da nossa vida

“Vaidade de vaidades, diz o Pregador; vaidade de vaidades, tudo é vaidade” (Eclesiastes 1.2). É muito fácil perdermos a perspectiva no meio das loucuras da nossa vida. Nossos dias estão tão cheios com pessoas e projetos, trabalhos e listas de desejos, casas e feriados, que nós podemos tem dificuldades para distinguir o importante do urgente. Nós nos perdemos no meio das nossas vidas.
Talvez essa crise nos relembre com o que devemos nos preocupar nas nossas vidas. Talvez nos ajude a distinguir entre o que é significativo e o que é sem sentido. Talvez o campeonato de futebol, ou aquela cozinha nova, ou aquele post no Instagram não seja essencial para minha sobrevivência. Talvez o coronavírus esteja nos ensinando o que realmente importa.

8. Nossa Esperança

Neste sentido, a questão mais importante não é, “Que esperança você tem ao se deparar com o coronavírus?” porque Jesus veio para nos alertar sobre a presença de um vírus muito mais letal e já espalhado – um que já atingiu todo homem, mulher e criança. Um vírus que não termina só na morte certa, mas na morte eterna. Nossa espécie, de acordo com Jesus, vive no surto de uma pandemia chamada pecado. Qual é a sua esperança diante desse vírus?
A história da Bíblia é a história de um Deus que entrou em um mundo infectado com esse vírus. Ele viveu com pessoas doentes, sem vestir uma roupa de proteção química, mas respirando o mesmo ar que nós respiramos, comendo a mesma comida que comemos. Ele morreu isolado, excluído do seu povo, aparentemente longe do seu Pai em uma cruz – tudo que ele pode fornecer a este mundo doente como um antidoto para o vírus, para que ele possa nos curar e nos dar a vida eterna. Ouça suas palavras:
25Disse-lhe Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá; 26e todo o que vive e crê em mim não morrerá, eternamente. Crês isto?” (João 11.25-16
Traduzido por Jonatas Miranda

Por Mark Oden - Pastor da Igreja Evangélica de Nápoles em Nápoles, Itália. Um ex-Oficial da marinha Real, ele é graduado em teologia pela Oak Hill Theological College em Londres. Ele e sua esposa Jane tem quatro filhos

quinta-feira, 12 de março de 2020

Seis pontos de meu calvinismo.


É claro que estou brincando – o calvinismo tem muito mais do que cinco ou seis pontos. Esses que vou citar são alguns dos que creio com respeito à salvação. E mesmo assim, nem todos os que se consideram calvinistas concordariam completamente comigo. Meu alvo é tentar esclarecer o que calvinistas, em geral, acreditam sobre a soberania de Deus e a responsabilidade humana. Não coloquei textos bíblicos, pois não quero provar nada – só explicar o que acredito como calvinista.
1 – Creio que Deus predestinou tudo o que acontece. O Deus que determinou todas as coisas é um Deus pessoal, inteligente, justo, santo e bom, que traçou seus planos infalíveis levando em conta a responsabilidade moral de suas criaturas. Ele não é uma força impessoal, como o destino. Portanto, as decisões que tomamos não são mera ilusão e nossa sensação de liberdade ao tomá-las não é uma farsa. Eu acredito que as nossas decisões e escolhas são bem reais e que fazem a diferença. Elas não são uma brincadeira de mau gosto da parte de Deus. De uma maneira para mim misteriosa, porém perfeitamente compatível com um Deus onipotente e infinito, ele consegue ser soberano sem que a vontade de suas criaturas seja violentada. Ao mesmo tempo, ao final, sempre prevalecerá aquilo que Deus já determinou desde a eternidade. Encaro essa relação entre a soberania de Deus e a responsabilidade humana como sendo parte dos mistérios acerca do ser Deus, como a doutrina da Trindade e das duas naturezas de Cristo
2 – Creio que Deus predestinou desde a eternidade aqueles que irão se salvar. Esta convicção não me impede de orar pelos descrentes e evangelizar. Ao contrário, evangelizo com esperança, pois Deus haverá de salvar pecadores. Creio que Deus já sabe, mas oro assim mesmo. Sei que ele ouve e responde, e que minhas orações fazem a diferença. Sei também que, ao final, através de minhas orações, Deus terá realizado toda a sua vontade. Não sei como ele faz isso. Mas, não me incomoda nem um pouco. Não creio que minha oração seja um movimento ilusório no tabuleiro da soberania divina.
3 – Não creio que Deus predestinou todos para a salvação. Da mesma forma, não creio que ele foi injusto e nem que ele fez acepção de pessoas para com aqueles que não foram eleitos. Não creio que Deus tenha predestinado inocentes ao inferno, pois não há inocentes entre os membros da raça humana. E nem acredito que ele tenha deixado de conceder sua graça a quem merecia recebê-la, pois igualmente não há pessoa alguma que mereça qualquer coisa de Deus, a não ser a justa condenação por seus pecados. Deus predestinou para a salvação pecadores perdidos, merecedores do inferno. Ao deixar de predestinar alguns, ele não cometeu injustiça alguma, no meu entender, pois não tinha qualquer obrigação moral, legal ou emocional de lhes oferecer qualquer coisa.
4 – Creio que Deus sabe o futuro, não porque previu o que ia acontecer, mas porque já determinou tudo que acontecerá. Por isso, entendo que a presciência de que a Bíblia fala é decorrente da predestinação, e não o contrário. Negar a predestinação e insistir somente na presciência de Deus com o alvo de proteger a liberdade do homem levanta outros problemas. Quem criou o que Deus previu? E, se Deus conhece antecipadamente a decisão livre que um homem vai tomar no futuro, então ela não é mais uma decisão livre.
5 – Creio que apesar de ter decretado tudo que existe desde a eternidade, Deus acompanha a execução de seus planos dentro do tempo, e se comunica conosco nessa condição. Quando a Bíblia fala de um jeito que parece que Deus nem conhece o futuro e que muda de ideia algumas vezes, é Deus falando como se estivesse dentro do tempo e acompanhando em sequência, ao nosso lado, os acontecimentos. É a única maneira pela qual ele pode se fazer compreensível a nós. Quem melhor explica isso é John Frame, no livro "Não Há Outro Deus," da Editora Cultura Cristã, que recomendo entusiasticamente.
6 – Creio que Deus é soberano e bom. A contradição que parece haver entre um Deus soberano e bom que governa totalmente o universo, por um lado, e por outro, e a presença do mal nesse universo é apenas aparente e, por enquanto, sem explicação. Diante da perversidade e dos horrores desse mundo, alguns dizem que Deus é soberano mas não é bom, pois permite tudo isto. Outros, que ele é bom mas não é soberano, pois não consegue impedir tais coisas. Para mim, a Bíblia diz claramente que Deus não somente é soberano e bom – mas que ele é santo e odeia o mal. Ao mesmo tempo, a Bíblia reconhece a presença do mal do mundo e a realidade da dor e do sofrimento que esse mal traz. Ainda assim, não oferece qualquer explicação sobre como essas duas realidades podem existir ao mesmo tempo. Simplesmente afirma ambas e pede que vivamos na certeza de que um dia Deus haverá, mediante Jesus Cristo, de extinguir completamente o mal e seus efeitos nesse mundo.
Deve ter ficado claro que um calvinista, para mim, é basicamente um cristão que aceita o que a Bíblia diz sobre a relação entre Deus e o homem e reconhece que não tem todas as explicações para as questões levantadas. Para muitos, esse retrato é de alguém teologicamente fraco e no mínimo confuso. Mas, na verdade, é o retrato de quem deseja calar onde a Bíblia se cala.

Rev Augustus Nicodemus Lopes.

Coronavírus ou “Corona-tiros”?


Um homem entrega comida em um bairro isolado na cidade chinesa de Wuhan, epicentro do surto, em 23 de fevereiro.


O mundo inteiro parou em razão da histeria coletiva que tomou conta das nações diante do novo vírus Covid-19. A descoberta do coronavírus impactou o mercado, as indústrias, escolas e a dinâmica das pessoas. É bom lembrar que, recentemente, tivemos outros vírus apavorantes: Ebola, SARS, H1N1... Houve certo pânico social no surgimento de todos eles. 

Infectologista brasileiro reconhecido internacionalmente, Vladimir Cantarelli afirma que a doença transmitida por este vírus nada mais é do que uma gripe forte e que, se entrarmos no site da OMS, veremos que dois milhões de pessoas morrem anualmente no mundo por causa de gripe. O perfil das pessoas que faleceram vitimadas pelo Covid-19, no geral, são idosas e com problemas bronco-pulmonares e respiratórios. Mas vale lembrar que todos os anos, apenas no inverno chinês, morrem, aproximadamente, entre 7 a 8 mil pessoas por causa da gripe. 

Os remédios para gripe não curam, mas amenizam o quadro e trazem bem estar. O que ataca o vírus é a defesa do organismo. Este vírus certamente chegaria ao Brasil, porque não é possível fechar as fronteiras. Ora, um vírus pode dar uma volta ao mundo em uma semana e assim aconteceu! 

O Tamiflu, remédio para combater o H1N1 trouxe uma riqueza impressionante aos seus fabricantes. O coronavírus, apesar de ainda não estar catalogado, é muito mais frágil que os outros vírus. Entretanto, há aspectos econômicos e políticos envolvidos. Por exemplo: a China, país fechado por causa da ditadura comunista, controla os meios de comunicação e informa apenas o que o governo julga importante. 

Atualmente, oito dos maiores laboratórios do mundo estão trabalhando 24 horas por dia para descobrir a vacina que impedirá a ação do Covid-19. Qual é o objetivo? Criar o medicamento que, em 90 dias, levará bilhões de dólares aos cofres dos fabricantes. 

Apesar das precauções higiênicas que precisamos tomar, não há mesmo razão para pânico e todos os especialistas afirmam a mesma coisa. Vale lembrar que aqui no Brasil temos razões muito mais fortes para nos sentir apavorados! De acordo com o Ministério da Saúde, em 2019 foram registrados um milhão, 544 mil 987 novos casos de dengue (1.544.987), denotando um aumento de 488% em relação aos números de 2018. Desse total, 782 pessoas morreram no nosso País. Também no ano passado, o Vírus H1N1 matou um mil 381 pessoas, sendo 55% das vítimas com idade acima de 60 anos. 

Outro “vírus” perigoso que segue atingindo ferozmente grupos mais vulneráveis é a fome. Cinco mil 653 pessoas morreram de desnutrição no Brasil em 2017, uma média de mais de 15 pessoas/dia. Em 2004, cerca de 4.6% da população era desnutrida. Em 2018 essa estatística caiu para 2.5%, mas ainda assim são cinco milhões de brasileiros desnutridos. 

Agora, o “vírus” mais assustador, que mais tem matado brasileiros, continua sendo a violência. No ano passado foram 41 mil 635 assassinatos no País contra 51 mil 558 casos em 2018 - trata-se do menor número de crimes violentos desde 2007. Ainda assim, um número assustador. 

Qual a razão de tantas mortes? O ódio, as desavenças até mesmo fúteis, a luta pelo poder e dinheiro, a violência contra a mulher e contra as crianças, a falta de respeito e de amor em casa. O grande e mortal vírus que temos de combater é a insensibilidade. Este é o pior de todos os vírus. E poucos parecem estar se importando com ele.

Rev Samuel Vieira.

sábado, 29 de fevereiro de 2020

Máscaras da Corrupção



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Comenta-se, com frequência, que há no Brasil uma cultura de corrupção. Uma cultura é forjada com a ação de pessoas e grupos de poder histórico, que então impulsionam uma nova interpretação dos fatos. Portanto, uma cultura não se forja no vácuo, mas pela intermediação de agentes humanos que, intencionalmente ou não, agem como protagonistas.

O problema da corrupção é que ela usa máscaras culturais e um dos melhores exemplos tem a ver com a força midiática. A mídia tenta construir narrativas e verdades. Por isso, ela depende da interpretação dada pelos agentes do jornalismo. Isto tem ficado cada vez mais explícito na polarização cada vez mais radical entre direita e esquerda no Brasil. 

Se você ouve a Jovem Pan, verá que, na maioria das vezes, o discurso da emissora apoia a direita. O modo como os fatos são colocados leva-nos a apoiar a versão apresentada. Se ouvimos ou assistimos a Globo vemos que, por mais favoráveis que as notícias sejam ao atual governo, ela vai tentar explorar um ângulo negativo nas abordagens que faz. E isso não é muito difícil, já que o governo tem telhado de vidro. Todos os movimentos do primeiro escalão são rigorosamente escrutinados.

Quem está dizendo a verdade? Seria a mídia inimiga ou a aliada à corrupção? As narrativas dependem do interesse pessoal e econômico das empresas de comunicação, por isso a mídia é tão interesseira e suscetível à corrupção quanto qualquer órgão do governo.

A corrupção é algo intrínseco à natureza humana. Os líderes da Reforma Protestante, como João Calvino, já falavam sobre a natureza intrínseca da corrupção humana. “Não somos pecadores porque pecamos, mas pecamos porque somos pecadores”. Pecado não é acidente de percurso ou deslize circunstancial, mas tem a ver com a essência da natureza humana. Isso é assustador! O coração humano tem uma tendência à decadência moral.

Em seu livro O Mito da Neutralidade Científica, Hilton Japiassu faz severas críticas ao pensamento de que a ciência é neutra, não carregada de interesses e intencionalidades, eventualmente sórdidos. Ele indaga: “Pode ainda (a ciência) ser considerada como um saber puro, como uma contemplação desinteressada e amorosa da verdade? (...) Estaríamos condenados a ficar presos aos sortilégios cúmplices da organização científica, submetendo-nos sempre mais às astúcias de seu controle insidioso a ponto de nos instalar, sem possibilidades de resistência, numa tecnonatura incessantemente aperfeiçoada?”

Tanto a mídia quanto o poder judiciário sofrem a influência de interesses. Não há “isenção jornalística”, nem isenção da corte e nem mesmo da ciência. Tudo isso revela o lado sombrio da existência humana. Nenhuma religião ou ideologia estão isentas desta lastimável realidade humana.

Jesus conhecia a natureza humana. A Bíblia afirma em João 2:24 que “(...) mas o próprio Jesus não se confiava a eles, porque os conhecia a todos, (...) porque Ele mesmo sabia o que era a natureza humana”. Por isso afirmava que Ele era a luz do mundo e aquele que o seguisse não andaria - e não anda - em trevas. Precisamos da graça de Deus para observar melhor as intenções e motivos dos nossos corações, para deixar que Ele ilumine os porões ocultos do nosso coração, removendo as máscaras da corrupção que tão facilmente obscurecem nossas decisões e nosso juízo de valores

Rev Samuel Vieira.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

Como Romanos 8 me fez calvinista.



Até hoje, sempre que estou atrás de um púlpito e digo coisas como “Todos os santos verdadeiros perseverarão até o fim e ninguém se perderá”, ainda preciso me beliscar. Eu rio interiormente e penso: O que o garoto de 22 anos de idade diria se ele pudesse me ouvir agora?
Veja bem, eu nem sempre fui calvinista.
Fui criado como arminiano clássico na tradição Batista do Livre Arbítrio. Quando adolescente, cortei meus dentes em teólogos como F. Leroy Forlines e J. Matthew Pinson , junto com os mais antigos teólogos como James Arminius e John Wesley. Quando eu tinha 22 anos, acreditei e ensinei que a graça era sempre necessária, mas nunca irresistível, e que cristãos genuínos podiam abandonar a Cristo e perder seu status justificado.
Por trás dessas crenças, havia uma visão da relação Deus / homem que era assim: os humanos foram criados para existir em um relacionamento amoroso com Deus. A natureza desse relacionamento amoroso exige uma resposta livre - e indeterminada - de nossa parte. Para citar Forlines, vi Deus trabalhando com o homem em um "relacionamento de influência e resposta" em vez de um "relacionamento de causa e efeito" (como pensavam os calvinistas). Deus poderia nos influenciar , mas ele respeitou nossa personalidade, deixando sempre a decisão final por nossa conta. E Deus fez isso, não porque ele era fraco, mas porque era assim que ele queria que o relacionamento funcionasse.
E no caso de você estar se perguntando, a diferença entre um Deus que influencia e um Deus que causa pode ser resumida em uma palavra: garantia . Forlines coloca desta maneira em seu livro The Quest for Truth :
Eu acho que a descrição do relacionamento de Deus com o homem que os calvinistas dariam seria muito parecida com a minha descrição de influência e resposta . No entanto, acredita-se que o resultado seja garantido . . . . Sempre que o resultado é garantido, estamos lidando com causa e efeito . Quando a garantia se foi, o calvinismo se foi .
Ele tem razão. Eu concordei com ele então; Eu concordo com ele agora. Eu simplesmente mudei de lado. Então o que aconteceu? A resposta curta é que corri contra Romanos 8: 28–30 .
Pregador Apaixonado, Passagem do Problema
Romanos 8: 28–30 é freqüentemente chamado de “a cadeia de ouro da redenção” - assim chamada por causa de seus cinco “elos” de pré-conhecimento divino, predestinação, chamado, justificação e glorificação.
Como arminiano, vi Romanos 8: 28–30 como uma passagem problemática. O versículo 29 foi definitivamente um texto de prova fundamental para a fé baseada nas eleições. Mas o resto foi difícil. Eu sabia o que meus comentaristas preferidos disseram sobre isso, mas nunca fiquei totalmente satisfeito. Então, atribuí-lo a uma anomalia. Afinal, nenhum sistema teológico explica tudo perfeitamente.
Eventualmente, percebi que a corrente de ouro de Paulo, como o calvinismo, tinha muito a ver com uma garantia.

Então comecei a ouvir os sermões de John Piper sobre Romanos, e meu mundo estava desfeito. Era 2004, eu tinha 22 anos e nunca tinha ouvido tal pregação. Sua exposição meticulosa expôs todas as fraquezas que eu já sentia na minha interpretação da passagem, enquanto descobria algumas novas. Não posso dizer que emergi daqueles sermões um calvinista convencido. Mas minha confiança foi severamente abalada. E finalmente percebi que a corrente de ouro de Paulo, como o calvinismo, tinha muito a ver com uma garantia.
A corrente será inquebrável?
Deixe-me apresentar os versículos 29–30 para nos ajudar a visualizar o argumento. (Leia do canto superior esquerdo para o canto inferior direito e observe cuidadosamente as palavras em itálico e as letras correspondentes.)
Como arminiano, concordei naturalmente com o comentarista Joseph Benson : “O apóstolo não afirma. . . que exatamente o mesmo número de pessoas é chamado, justificado e glorificado. ”Afinal, isso implicaria uma garantia. Quanto mais eu estudava a passagem, porém, mais parecia que era exatamente o que Paulo estava afirmando.
 Paulo começa descrevendo um grupo de pessoas com base em algo que Deus faz por eles (“aqueles a quem ele conheceu”). Ele então acrescenta algo mais que Deus faz para o mesmo grupo de pessoas ("ele também predestinou"). Aqueles que ele conheceu também são os que predestinou. Portanto, A = B. Isso é verdade em cada cláusula da cadeia.
Paulo está afirmando que precisamente o mesmo número de pessoas - de fato, exatamente o mesmo grupo de pessoas - é conhecido, predestinado, chamado, justificado e glorificado.

Mas observe a sobreposição entre cada cláusula. O segundo verbo em cada linha serve como o primeiro verbo na próxima. É isso que liga as cinco cláusulas como links em uma cadeia. E é por isso que finalmente concluí que Benson e eu estávamos errados. Paulo está afirmando que precisamente o mesmo número de pessoas - de fato, exatamente o mesmo grupo de pessoas - é conhecido, predestinado, chamado, justificado e glorificado. Ou então, A = B = C = D = E.
Como arminiano, fui forçado a argumentar que esses cinco passos eram simplesmente uma sequência geral que todos os santos verdadeiros tinham que passar, sem garantia de que aqueles do grupo A chegariam ao grupo E. De fato, eu acreditava que alguns poderiam cair. em qualquer fase do processo. Era menos como uma corrente e mais como um alvo, em que os círculos ficavam menores à medida que você se movia para dentro.
Mas quanto mais eu examinava a linguagem real, mais implausível essa crença se tornava. Isso inevitavelmente me levou ao calvinismo. Afinal, se todos os chamados são justificados, então o chamado deve garantir a fé, pois a fé precede a justificação ( Rm 5: 1 ). Além disso, se todos os justificados são glorificados, a justificação deve ser um status permanente - um veredicto que Deus nunca revoga.
Isso eu sempre desconfortava, embora não tivesse apreciado completamente a dificuldade antes de ouvir Piper. Mas havia mais um problema que Piper levantou que eu ainda não havia considerado.
Garantir a finalidade da cadeia de ouro
É importante reconhecer por que Paulo forja essa cadeia para começar. A resposta é encontrada no famoso versículo 28:
E sabemos que para aqueles que amam a Deus, todas as coisas trabalham juntas para o bem, para aqueles que são chamados de acordo com seu propósito.
Observe que Paulo não está simplesmente fazendo uma afirmação factual aqui (por exemplo, “Todas as coisas funcionam juntas para o bem delas”). Ele está reivindicando conhecimento (por exemplo, "sabemos que todas as coisas funcionam juntas para o bem delas").
O que levanta a questão: “Como sabemos?” Que garantia podemos ter de que, apesar de todas as aparências, todas as coisas conspiram para o bem daqueles que amam a Deus e são chamados por ele? Essa é a pergunta que a cadeia de ouro existe para responder. É por isso que o versículo 29 começa com a palavra “para” - está fornecendo um argumento sobre como sabemos o versículo 28. E aqui está o argumento em poucas palavras: sabemos que todas as coisas funcionarão juntas para o bem dos chamados, porque se você estiver chamado, isso significa que você foi primeiro conhecido e predestinado a ser conformado à imagem de Cristo, e significa que agora você está justificado e será glorificado .
É assim que sabemos: porque não há interrupções nessa cadeia.
Deus não deixou a composição da família de Cristo nas mãos de seres humanos volúveis.

Forlines estava certo. Na estrutura de influência e resposta arminiana, não há garantia. Mas isso derrotaria o propósito da passagem, porque uma garantia é exatamente o que Paulo procura. Se as pessoas puderem sair da cadeia a qualquer momento, nunca saberemos que todas as coisas funcionarão juntas para o bem dos chamados. Eles podem, mas, novamente, talvez não, porque o resultado dependeria, em última análise, dos chamados. Muitos dos chamados nunca seriam justificados, muito menos glorificados.
Mas a boa notícia é que essa corrente é inquebrável, tendo sido forjada pelo próprio Deus. Nada disso significa que nossa pregação ou fé é desnecessária. Tampouco significa que podemos ter certeza de nossa salvação, independentemente de perseverarmos. Significa simplesmente que Deus não deixou a composição da família de Cristo nas mãos de seres humanos volúveis. Deus faz mais do que apenas influenciar - ele predestina. É por isso que todas as coisas vão trabalhar juntos para o bem da chamada, e Cristo vai seja o primogênito entre muitos irmãos ( Rom. 8:29 ).
Deus está no comando. O resultado é seguro. E isso, meus amigos, é uma garantia.
Justin Dillehay (MDiv, The Southern Baptist Theological Seminary) é pastor da Grace Baptist Church em Hartsville, Tennessee, onde reside com sua esposa, Tilly, e seus filhos, Norah, Agnes e Henry. Ele é um editor colaborador da The Gospel Coalition.

O Arrependimento de Deus.


Por duas vezes a Bíblia diz que Deus se arrependeu de algo que ele fez no passado (Gênesis 6:6-7 e 1 Samuel 15:11), e pelo menos onze vezes a Bíblia diz que ele se arrependeu ou se arrependeria de algo que estava prestes a fazer no futuro (Êxodo 32:12-14, 2 Samuel 24:161 Crônicas 21:15, Salmos 106:45, Jeremias 4:28, 18:8, 26:3, 13, 19, 42:10; Joel 2 :13-14; Amós 7:3, 6; Jonas 3:9-10; 4:2).
Porém, a Bíblia também diz que Deus não se arrepende. Por exemplo, o Salmo 110:4 diz:
Jurou o Senhor e não se arrependerá: “Tu és um sacerdote eterno, segundo a ordem de Melquisedeque”.
E Ezequiel 24:14 diz:
"Eu, o Senhor disse: Será assim, e o farei; não tornarei atrás e não pouparei, nem me arrependerei; conforme os teus caminhos e conforme os teus feitos, te julgarão, diz o Senhor". (Veja Jeremias 4:27-28)
Mas ainda mais importante do que estes, são os textos que dizem que Deus seria como um homem se ele se arrependesse. Ou seja, a imunidade de Deus da necessidade de se arrepender é baseada em sua divindade. Ser Deus significa que ele não pode se arrepender.
Números 23:19 — Deus não é homem para que minta; nem filho do homem para que se arrependa.
1 Samuel 15:29 — Aquele que é a Força de Israel não mente nem se arrepende; porquanto não é um homem para que se arrependa.
Este último texto está também na mesma história que diz que Deus se arrependeu de ter feito Saul um rei (1 Samuel 15:1135). Portanto, não devemos pensar que estes dois pontos de vista vêm de diferentes autores do Antigo Testamento que não concordam um com o outro.
Pelo contrário, nós provavelmente devemos dizer que por um lado Deus de fato se arrepende, e por outro lado ele não se arrepende. 1 Samuel 15:29 e Números 23:19 têm a intenção de nos impedir de ver o arrependimento de Deus de uma forma que iria colocá-lo na categoria limitada de um homem.
O arrependimento de Deus não é como o do homem. Eu considero que isso signifique que Deus não é pego de surpresa por eventos inesperados como nós somos. Ele conhece o futuro. ("Eis que as primeiras coisas passaram, e novas coisas eu vos anuncio, e, antes que venham à luz, vo-las faço ouvir". Isaías 42:9). Deus também nunca peca. Portanto, seu arrependimento não é devido à falta de previsão nem à tolice.
Pelo contrário, o arrependimento de Deus é a expressão de uma atitude e ação diferentes a respeito de algo passado ou futuro — não porque os acontecimentos o pegaram desprevenido, mas porque alguns acontecimentos fazem a expressão de uma nova atitude mais adequada agora do que teria feito antes. Deus "muda" de idéia não porque ele responde a circunstâncias imprevistas, mas porque ele determinou que sua mente esteja de acordo com a maneira como ele mesmo determina as mudanças e acontecimentos do mundo.
Descansando na confiabilidade de Deus,
Pastor John PIPER

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

At 16 O Misterioso processo de Deus na plantação de sua igreja



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Introdução:

Uma das parábolas mais impressionantes, e muitas vezes esquecida, de Jesus encontra-se relatada apenas em Marcos, e é chamada de A parábola da semente (não confundir com a parábola do semeador): “Disse ainda: o reino de Deus é assim como se um homem lançasse a semente à terra; depois, dormisse e se levantasse, de noite e de dia, e a semente germinasse e crescesse, não sabendo ele como. A terra, por si mesma frutifica” (Mc 4.26-27, 28a).

Jesus demonstra que a semente tem poder em si mesma. Ela tem o germe da vida. Por isto, “a terra, por si mesma frutifica”. Outra verdade maravilhosa é que o crescimento da semente é um mistério. “... e a semente germinasse e crescesse, não sabendo ele como”. Não tente entender a metodologia, nem os mecanismos. A obra de Deus é essencialmente algo da exclusiva autoridade de Deus.

A forma como o avanço missionário se dá é um mistério. Basta ler a história das missões que veremos as formas mais improváveis da realização da missão. Creio que esta é uma forma de Deus nos ensinar que ele é o autor das missões e que o seu poder é que realiza todas estas coisas.

A maneira como as igrejas crescem também é misteriosa. Deus usa situações improváveis, plantadores improváveis de igreja e realiza a sua obra. Bem, isto não deveria nos causar surpresa, afinal, Jesus foi categórico ao afirmar: “Eu edificarei a minha igreja”, portanto a obra de edificação da igreja tem a ver com sua promessa e seu empenho pessoal, para que as igrejas floresçam. Assim tem sido, misteriosamente, em todos os lugares.

O texto de Atos 16 nos fala de alguns princípios, criados pelo próprio Deus, para fazer sua obra acontecer.

O livro de Atos tem algumas características importantes:

A.   É um livro teocrático – O Deus soberano controla todas as coisas. Alguém chegou a afirma que o melhor titulo não deveria ser “Atos dos Apóstolos”, mas “Atos do Espírito Santo”. O Espírito de Deus permeia e direciona cada ato dos seus servos, fechando e abrindo portas, dando orientação e controlando os rumos da sua igreja. Deus soberano controla todas as coisas: cosmos, igrejas, particularidades (pessoas).

B.    É um livro profético – Deus cumpre o que promete. Os acontecimentos na vida da igreja apostólica estão constantemente sendo explicados à luz das promessas do Antigo Testamento. Deus está conduzindo os eventos para que seus propósitos se cumpram.

C.    É um livro Cristocêntrico – A vida e a obra de Cristo, sua natureza, o que ele é, sua natureza redentiva, sua divindade, são constantemente expostos nos sermões e mensagens deste livro. Este livro nos convida a adorar a Cristo e a entender sua messianidade e divindade.

D.   É um livro missionário – O que vemos em Atos é uma igreja sendo desafiada e impulsionada, pelo Espírito Santo, a realizar a obra. Em todos os momentos percebemos que Deus, e não a igreja, está levando sua igreja a cumprir a missão de pregar em Jerusalém, Judeia, Samaria e até os confins da terra.


Apesar do mistério no processo de plantação de igrejas, o texto de At 16 nos mostra como a igreja de Cristo é implantada.

1.     Deus inicia o processo – A igreja de Cristo estava em processo de expansão. Esta era a hora certa de expandir. O pensamento de Paulo era claro: vamos abraçar a Ásia! Temos experiência, recursos, pessoal treinado, equipe pronta. Entretanto o Espírito de Deus não chancelou os projetos da igreja.

“E, percorrendo a região frígio-gálata, tendo sido impedidos pelo Espírito Santo de pregar a palavra na Ásia” (At 16.6). Não é difícil pensar no diabo impedindo a obra. O próprio Paulo afirma que queria visitar os irmãos de Tessalônica “...não somente uma vez, mas duas; contudo, Satanás nos barrou o caminho” (1 Ts 3.18). Aqui temos uma difícil questão hermenêutica: Deus impede a missão da igreja na Ásia. Desde quando o Espírito Santo “impede o avanço missionário?”

No versículo seguinte, mais uma vez, “defrontando Mísia, tentavam ir para Bitínia, mas o Espírito de Jesus não o permitiu” (At 16.7). O termo grego poderia ser traduzido por “Deus proibiu”. Bitínia, era uma região próspera. Aparentemente seria muito bom que o evangelho florescesse naquela região, contudo, o Espírito disse não.

O primeiro axioma de missões é: “A obra missionária nasce no coração de Deus”. Todas as vezes que olhamos para Atos vemos exatamente isto. Então, porque o Espírito de Deus impediu e proibiu os irmãos de seguirem seus projetos? Por uma razão simples: Deus é soberano, ele tem propósitos em todas as coisas. Certamente não era a hora certa para a execução destes projetos. Posteriormente veremos a igreja de Deus avançando vitoriosa para alcançar a Ásia, mas agora não era a hora.

É assim que vejo Deus conduzindo a história. Alguns anos atrás, queríamos plantar uma igreja na cidade de Pirenópolis, importante eixo turístico de Goiás. Uma pessoa da igreja nos procurou para informar que sua irmã estava vendendo um lote estratégico na cidade e que ela queria comprar este lote para plantar uma futura igreja. Ela não conseguiu levantar todo dinheiro, mas com metade resolvi desafiar o conselho da igreja para adquirir aquela propriedade. E hoje, está igreja esta sendo plantada naquela cidade. A liderança de nossa igreja estava bem aquém deste projeto, mas o Senhor, dono da obra, levantou pessoas com sensibilidade que contribuíram para que o projeto pudesse ser executado.

A importância de Trôade

A igreja foi obrigada a ficar em Trôade, esperando o mover do Espírito. O que eles estavam esperando? A direção do Espírito. Deus daria a visão.

Trôade, se torna o lugar e momento de pausa e reflexão. A mente estava confusa e eles precisavam discernir a vontade de Deus. Paulo fica em Trôade para pensar e orar. Trôade não era estratégica, mas se torna importantíssima para a missão da igreja, porque nela Deus dá a direção e a visão da obra missionária: “Passa à Macedônia e ajuda-nos” (At 16.9).

Muitas vezes Deus nos mantém em Trôade, para que tenhamos tempo de discernir sua vontade e plano. Quando formos obrigados a parar, precisamos refletir sobre o que Deus está querendo revelar. Naquela cidade eles se mantiveram no caminho da espiritualidade. Não pregaram, mas foi a cidade mais estratégica. Muitas vezes Deus nos deixa em Trôade para aprofundamento, reflexão e discernimento.

Os apóstolos precisavam discernir o próximo passo?
Da mesma forma, precisamos considerar que é fácil se encantar com a Ásia e Bitínia, mas precisamos de Trôade, onde encontramos tempo para orar, silenciar o coração, refletir mais. Qual a direção que Deus está dando? Qual é o próximo passo?

2.     Deus, e não nós, possui a correta estratégia. Ao lermos o texto observamos que saem de Trôade, passam pela Samotrácia e Neápolis, mas não se detiveram em nenhuma delas.

Este texto nos leva à pergunta: Deus não tinha interesse nos habitantes destas duas cidades? Se tinha, porque não manteve os discípulos ali? Esta tem sido uma questão interessante. Não raras vezes vejo pessoas interessadas em plantar igreja, mas são muito pouco estratégicos na sua abordagem.

Ao lermos com cuidado o texto, observamos: “...e dali, a Filipos, cidade da Macedônia, primeira do distrito e colônia. Nesta cidade permanecemos alguns dias” (At 16.12).

Duas coisas podem ser observadas:
Primeira, o alvo de Deus era Macedônia, portanto, não deveriam ter outro foco, quando Deus já havia dado a direção.

Segunda, a importância da cidade. Filipos era estratégica.
Algum tempo atrás, pensando na plantação de futuras igrejas, pedi a um grupo de estudantes que fizesse um trabalho demonstrando quais cidades do Estado de Goiás, tinham mais de 20 mil habitantes, sem a presença de nossa denominação. Alguns questionaram: Por que 20 mil, e as demais cidades de 3, 5 e 7 mil habitantes, não precisam ser alcançadas?

Minha resposta foi: por causa da estratégia que estas cidades possuem. Teoricamente é mais fácil estabelecer uma comunidade em lugares onde o campo tenha mais possibilidades de crescimento. Além do mais, é isto que observamos no livro de Atos. Esta foi a estratégia de Deus. Ele enviou seus discípulos para Filipos, a primeira e mais importante cidade da região. Dali o evangelho atingiu rapidamente outras cidades e região. Mas precisamos lembrar que nenhuma estratégia ou método será eficaz, se não estiver direcionada pelo Espírito Santo.

3.    Deus usa pessoas improváveis para estabelecer sua igreja. A experiência de Filipos é interessante para demonstrar a forma misteriosa como Deus faz as coisas acontecerem.

Lídia, a estrangeira
Paulo tem a visão de um jovem macedônio, mas seu primeiro encontro foi com uma mulher estrangeira. Paulo não encontra um varão, mas uma varoa. Ela não era de Filipos, mas de Tiatira. Lídia se transformará numa pessoa chave para alcançar aquela cidade. Ela era comerciante de púrpura. Foi a primeira pessoa a ser convertida na Europa. “O Senhor lhe abriu o coração para atender às coisas que Paulo dizia” (At 16.14). Quando Paulo sai da cadeia, encontra uma igreja na casa de Lídia (At 16.40).

A jovem adivinhadora
A segunda pessoa foi uma jovem possessa, que adivinhava e impressionava as pessoas da região pela sua clarividência. Havia todo um sistema de exploração destas coisas, mas aquela jovem se tornou, por algum tempo, uma propagandista e marqueteira dos apóstolos, porque “seguia a Paulo e a nós, dizendo: Estes homens são servos do Deus Altíssimo e vos anunciam o caminho da salvação” (At 16.17). Aparentemente ser referendado por aquela jovem poderia parecer interessante, entretanto, depois de muitos dias, Paulo vai se tornando inquieto com aquela situação, e já indignado, diz ao espírito maligno: Em nome de Jesus Cristo, eu te mando: retira-te dela. E ele, na mesma hora saiu.

Paulo se dirige ao demônio, e não à jovem. Ela era dominada por aquela estranha força.

Depois de terem expulsado o demônio são levados à cadeia. No processo da plantação de igrejas, você não terá nenhum problema, enquanto não incomodar o diabo. Quando Jesus foi a Gadara, ele expulsou o demônio daquele jovem que era severamente oprimido pelo diabo. Mas quando ele os enviou para os porcos, houve prejuízo financeiro e eles foram expulsos de Gadara. As pessoas não tem dificuldade em conviver com o diabo, e não incomodam se ele está destruindo vidas. Mas quando você mexe no chiqueiro deles, você está em problema.

O carcereiro desesperado
Pela sua profissão, este homem é um daqueles que chegamos a duvidar se pode ser salvo. Ele era um militar linha dura. Entretanto, após sua conversão, o vemos cuidando pessoalmente de Paulo e Silas que foram espancados. O carcereiro deixa sua profissão e se torna enfermeiro. Sua rudeza se transforma em ternura. Sua casa torna-se hospedagem para aqueles homens.

Parece que as coisas não encaixam. Estas três pessoas talvez não estivessem no nosso “target people”, ou “público alvo”. Entretanto, Deus não age com base nas probabilidades, ele é Deus. Após a ressurreição, para quem Jesus primeiramente se revela? Maria Madalena. Como mulher, ela não poderia testemunhar num tribunal. Além do mais, seu currículo não era dos melhores... entretanto, Jesus se revelou a ela, antes de se mostrar aos seus discípulos. Após a ressurreição, alguns duvidam (Mt 28.17) mas Jesus resolve usar pessoas dúbias. Maria Madalena: A mulher mais complicada, menos inteligente, complexa. Certamente uma forma de evidenciar seus métodos, sua própria força e poder? Nem sempre o que faz sentido para nos, faz sentido para Deus.

É a lógica da graça.
O segredo não é se temos poder, mas termos o Deus de todo poder ao nosso lado.
Aquelas pessoas, improváveis membros de uma igreja cristã, são alcançadas pela graça do Evangelho.

Deus usa os fracos. John Knox chega mesmo a indagar: Por que Deus escolhe os fracos?

Daquela cidade, muitas coisas boas surgem. Epafrodito sai dali. Esta igreja se tornará a igreja mais solidária à Paulo e se tornará a única igreja a sustentá-lo na obra missionária.


Conclusão:
Desta mensagem gostaria de tirar quatro aplicações para nossa vida:

1.     Uma igreja se estabelece por causa de Deus. Ele é o autor da obra missionária. Ele inicia o processo.

2.     Deus, e não nós, tem a estratégia correta. Podemos ter planos, criar métodos, mas precisamos, acima de tudo tentar entender para onde Deus deseja nos direcionar. Eles queriam ir para Ásia, mas Deus lhes mandou para Europa.

3.    Deus, e apenas Ele, sabe a hora oportuna para alcançar uma região. A igreja de Cristo demorou muitos anos, mas depois também teve oportunidade de ministrar a Ásia. Aquela não era a hora da obra missionária avançar para o Oriente.

4.     Deus usa pessoas improváveis para estabelecer a sua igreja. Gente quebrada, confusa, desesperada, dominada pelas trevas, pessoas desprezadas socialmente, para estabelecer sua obra e cumprir seus propósitos.

Rev Samuel Vieira.

CORONEL JOÃO DOURADO (1854-1927)

Alderi Souza de Matos João da Silva Dourado nasceu em Caetité, sul da Bahia, no dia 7 de janeiro de 1854. Era filho de João José da Silva Do...