terça-feira, 25 de julho de 2017

CALVINO, O TEÓLOGO DO ESPÍRITO SANTO.

O Teólogo do Espírito Santo:
Um Estudo sobre o Ensino de Calvino sobre a Palavra e o Espírito
por
Rev. Augustus Nicodemus Lopes


Introdução
Meu tema neste artigo é "Calvino, o teólogo do Espírito Santo." Devo começar dizendo que este título não foi dado a Calvino pelos seus contemporâneos, mas sim pelos estudiosos modernos, reconhecendo a sua importância como teólogo e exegeta para esta área da Teologia que está em tanta relevância hoje.
O título pode confundir algumas pessoas. Podem pensar que o assunto sobre o qual Calvino mais escreveu, e ao qual mais se dedicou, foi o Espírito Santo. Na realidade, embora Calvino tenha escrito muita coisa sobre o Espírito Santo, nunca escreveu uma obra específica sobre o assunto, como, por exemplo, John Owen e Abraham Kuyper, cujos livros sobre o tema são fundamentais para a Igreja contemporânea.(1) Embora em suas Institutas de Religião Cristã João Calvino trate freqüentemente da pessoa e obra do Espírito Santo, não dedicou ao assunto um capítulo exclusivo.(2)
Alguns têm criticado Calvino por não haver dado atenção mais direta ao Espírito Santo em seus escritos, especialmente nas Institutas . A crítica é injusta. Existem razões suficientes para esta aparente falta de atenção.
Em primeiro lugar, a doutrina do Espírito Santo não era o foco do debate de Calvino com a Igreja Católica Romana da sua época, e nem da sua polêmica com os reformadores radicais, os Anabatistas e os "Entusiastas", conhecidos como a ala de esquerda da Reforma. (3) Calvino só tratou da obra do Espírito Santo na medida em que esse assunto se relacionava com os pontos críticos em debate, como a doutrina da salvação, da santificação, das Escrituras, e dos sacramentos.
Em segundo lugar, Calvino tinha a visão bíblica-neotestamentária de que o Espírito Santo geralmente agia nos bastidores, como o agente da Trindade. Embora sua ação fosse claramente perceptível, quem deveria sempre receber a proeminência eram o Pai e o Filho. Essa convicção reflete-se nas suas obras e em sua abordagem dos mais variados temas teológicos. Não existe praticamente nenhum assunto teológico em que Calvino não se refira, em seu tratamento, à obra do Espírito. Sua Pneumatologia é desenvolvida dentro das demais áreas da Teologia Sistemática, como Teontologia (estudo da Pessoa de Deus), Soteriologia e Eclesiologia.
Esta mesma abordagem se encontra refletida na Confissão de Fé de Westminster. É verdade que seus autores, os Puritanos, não escreveram um capítulo exclusivo sobre a pessoa e obra do Espírito. Mas, como sugeriu Dr. Benjamim B. Warfield, conhecido teólogo presbiteriano reformado, do início deste século, a razão é que preferiram escrever nove capítulos em vez de apenas um. A tentativa que foi feita em nossa época, pela Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos, para suprir esta alegada deficiência, produziu um capítulo a mais na Confissão de Fé que, segundo Warfield, nada mais é que um curto sumário destes nove capítulos originais. (4)
E por fim, não se pode exigir de Calvino (e nem dos autores da Confissão de Fé) uma abordagem do assunto que seja aguçada pelas questões relacionadas com o surgimento do movimento pentecostal, séculos após a sua morte. Mesmo assim, Calvino é surpreendentemente atual no que diz sobre o Espírito.
Por que, então, o título "teólogo do Espírito Santo?" Em primeiro lugar, Calvino foi o primeiro a sistematizar de forma clara o ensino bíblico sobre o Espírito Santo. Não é que ninguém, antes dele, não houvesse escrito sobre o assunto. Mas, é que poucos, antes e depois de Calvino, conseguiram ser tão claros, simples, e bíblicos.(5) Ouçamos o testemunho de Dr. Warfield:
A doutrina sobre a obra do Espírito Santo é uma dádiva de João Calvino à Igreja de Cristo...Nos amplos departamentos doutrinários sobre "A Graça Comum," "Regeneração," e "O Testemunho do Espírito" do livro terceiro das Institutas, Calvino foi o primeiro a desenvolver a doutrina da obra do Espírito Santo, e a dar a toda a doutrina do Espírito Santo uma formulação sistemática, fazendo dela uma possessão inalienável da Igreja de Deus.(6)
Em segundo lugar, Calvino integrou indissoluvelmente a doutrina do Espírito Santo aos demais temas e áreas da teologia, como regeneração, santificação, os meios de graça, e o conhecimento de Deus, entre outros. A Pneumatologia de Calvino, igualmente, abrangia e permeava todos os demais departamentos da Enciclopédia Teológica. Sua teologia é uma unidade orgânica, onde o Espírito aparece apropriadamente como o Soberano dinamizador.
Em terceiro lugar, Calvino resgatou alguns aspectos da doutrina do Espírito Santo que estavam soterrados debaixo da teologia medieval da Igreja Católica, como por exemplo, a relação entre a Palavra e o Espírito. Nosso alvo neste ensaio é analisar mais exatamente esta contribuição de Calvino para nosso conhecimento da obra do Espírito Santo, ou seja, a relação vital e orgânica entre o Espírito e a Palavra de Deus, as Escrituras.
O ensino de Calvino influenciou profundamente os estudos subsequentes dentro dos círculos Reformados. Sua ênfase na ação soberana do Espírito continua na tradição reformada entre os Puritanos ingleses, particularmente John Owen e Richard Sibbes, que nos deram os estudos bíblicos teológicos mais extensos e profundos que existem em qualquer língua sobre o ministério do Espírito Santo.

O Contexto Teológico de Calvino

Comecemos por lembrar-nos que a teologia de Calvino nasceu e desenvolveu-se em meio ao intenso conflito doutrinário que marcou a Reforma do século XVI. Sua doutrina do Espírito Santo foi moldada em meio à sua batalha em duas frentes. Em uma, ele enfrentava o cativeiro das Escrituras pela Igreja Católica, e na outra, o abandono das Escrituras pelos da Reforma radical.

A Igreja Católica e o cativeiro das Escrituras
Calvino e a Igreja Católica tinham algumas convicções em comum quanto à doutrina das Escrituras. Para eles, as Escrituras eram a Palavra de Deus, inspiradas pelo Espírito Santo, infalíveis, e autoritativas. Este ponto não estava sendo disputado por Calvino, nem pelos demais reformadores. O ponto de discórdia entre Calvino e os católicos era quanto ao ensino papista de que a autoridade da Escritura dependia do testemunho da Igreja. A Igreja Católica afirmava que o cânon das Escrituras, a sua preservação, a sua origem divina e sua autoridade, deviam ser aceitos pelos fiéis como verdadeiros porque a Igreja assim o afirmava. A autoridade das Escrituras, enfim, dependia do testemunho da Igreja. A Igreja, além disto, tinha a correta interpretação das Escrituras; a coleção dessas interpretações formava a tradição eclesiástica, que possui tanta autoridade quanto as próprias Escrituras. Assim, era vedado aos católicos leigos lerem e interpretarem as Escrituras. Eles dependiam da interpretação dada pela Igreja. Desta forma, a Palavra e a sua interpretação estavam cativas debaixo da autoridade eclesiástica.
Calvino levantou-se contra esse estado de coisas, que havia prevalecido durante a Idade Média. Ele considerava esse ensino como sendo uma afronta ao Espírito Santo, e um abuso de autoridade por parte da Igreja. Era a Igreja que estava fundada sobre as Escrituras, e não o contrário. A autoridade das Escrituras não dependia do testemunho da Igreja, e sim o contrário: a Igreja só possuía autoridade enquanto estivesse dentro da doutrina bíblica. Calvino apelava aqui para Ef 2.20, onde Paulo ensina que a Igreja está edificada sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, que é o ensino das Escrituras.(7) A Igreja simplesmente reconhecia — não estabelecia e nem determinava — inspiração e a autoridade dos livros que compunham o cânon sagrado.(8)
Para Calvino, a maior de todas as provas da autoridade e inspiração das Escrituras era que o próprio Deus nos falava através delas. Calvino chamava a isto o testemunho interno do Espírito .(9) Para ele, o homem natural não poderia ser convencido da divindade das Escrituras por argumentos apresentados pela Igreja, por mais lógicos e racionais que eles parecessem (1 Co 2.14).(10) Era o Espírito quem persuadia o crente de que Deus estava falando nas Escrituras , inclinando-lhe o coração a aceitá-las, e dando-lhe plena certeza disto, gerando-lhe fé em seu coração. Nas suas Institutas e comentários Calvino aponta para alguns textos com este efeito, como por exemplo, 1 Jo 5.6-7, 2 Tm 1.14-15, 1 Co 2.10-16.(11)
Para Calvino, o que o Espírito havia revelado nas Escrituras era suficiente e final. Maomé, o Papa, e os "Entusiastas" estavam errados, ao reivindicar que o Espírito estaria ensinando novas verdades no presente. Para Calvino, as palavras do Senhor Jesus em Jo 14.25 deixavam claro que o ministério do Consolador consistiria, não em revelar novas verdades, que fossem além das que haviam sido ensinadas pelo Senhor Jesus e seus apóstolos, mas em iluminar as mentes e os corações dos crentes, para que compreendessem e cressem nas verdades, agora registradas na Escritura. Ele afirma: "O espírito que introduz qualquer doutrina ou novidade que vá além do Evangelho, é um espírito de mentira, e não o Espírito de Cristo."(12)
O efeito do ensino de Calvino foi libertador.(13) Através da ênfase no testemunho interno do Espírito Santo como a evidência máxima da divindade e da autoridade das Escrituras, ele libertou as Escrituras e a sua interpretação do cativeiro imposto pela Igreja Medieval, e as colocou de volta onde elas pertenciam de direito, nas mãos do Espírito Santo. Neste sentido, estava certa a avaliação de alguns católicos encarregados da contra-reforma no século XVII, de que uma das maiores diferenças que existiam entre Roma e Genebra se encontrava em suas doutrinas sobre a pessoa e a obra do
Espírito Santo.



Os Reformadores Radicais 
e seu Desprezo pela Palavra
A outra fronte de batalha de Calvino era contra o ensino da Reforma radical , conhecida como a "ala esquerdista" da Reforma.(14) Havia diversos grupos dentro desta ala do movimento reformista. Havia, em primeiro lugar, como os Anabatistas, os "Fanáticos", os "Espiritualistas" e os Antitrinitarianos, que "embora diferentes em seus propósitos e em suas doutrinas, tinham em comum o desejo de ver uma Reforma muito mais radical do que a propagada por Lutero e Zwinglio."(15) A polêmica de Calvino contra os Anabatistas concentrou-se em questões como batismo infantil, predestinação, governo de Igreja, relação entre Igreja e Estado, e interpretação das Escrituras.(16)
Foi contra os excessos dos "Entusiastas" ou "Fanáticos" (como eram conhecidos) na área de novas revelações contemporâneas do Espírito, que Calvino se concentrou em alguns de seus escritos. Ele escreveu um tratado em 1545 entitulado Contre la secte phantastique et furieuse des Libertines qui se nomment spirituelz (Contra a seita fantástica e furiosa dos Libertinos, que se chamam de Espirituais), que ainda não foi traduzido para o português.(17) Freqüentemente em suas Institutas e comentários Calvino faz menções diretas ou sugestões implícitas sobre este movimento.
Os "Entusiastas" enfatizavam o ministério didático do Espírito, um ponto que havia sido resgatado pelos Reformadores; porém, estavam indo além deles, reivindicando serem ensinados diretamente pelo Espírito através de novas revelações, por meio de uma luz interior . Afirmavam que o Espírito não podia ficar restrito a palavras escritas, pois isto diminuiria sua soberania. Testar as manifestações espirituais seria desonrar o Espírito. Chegavam a ridicularizar os que se apegavam às Escrituras, pois a consideravam como uma forma inferior e temporária de revelação, e criticavam Calvino e os demais reformadores por se apegarem à letra que mata.
Os "Entusiastas," portanto, eram uma reação à escravidão das Escrituras por parte da Igreja que havia vigorado até a Reforma, mas uma reação que estava indo longe demais. Calvino, naturalmente, simpatizava-se com os "Entusiastas" em vários pontos. Para ambos, as Escrituras, como Palavra de Deus, não estavam cativas à interpretação da Igreja, mas deveriam ser livremente examinadas por todos. Calvino, porém, questionava seriamente a separação entre o Espírito e a Palavra, e considerava qualquer tendência neste sentido como "demência".(18) Ele também duvidava que "novas revelações" fossem uma obra do Espírito Santo, e chegava mesmo a suspeitar que os que reinvidicavam receber revelações novas, que excediam as Escrituras, estavam sendo guiados por outro espírito, que não o de Deus. Calvino cria na realidade e na atuação de espíritos mentirosos, e que Satanás estava continuamente iludindo as pessoas, procurando afastá-las da verdade, transfigurando-se em "anjo de luz" (2 Co 11.3,14). Para ele, "novas revelações", na verdade, eram invenções de espíritos mentirosos, não provinham do Espírito Santo, sendo o cumprimento de passagens como 1 Tm 4.1-2.(19)

O Ensino de Calvino sobre o Espírito e a Palavra
Calvino não se limitou a criticar os exageros dos "Entusiastas." Ele apresentou, de forma positiva e construtiva, o ensino bíblico sobre a direção divina para a Igreja vivendo após os tempos apostólicos. No livro I das suas Institutas , onde trata de "O Conhecimento de Deus como Criador", Calvino dá o seguinte título ao capítulo 9: Os fanáticos, abandonando as Escrituras e bandeando-se para revelação, derrubam todos os princípios da piedade . Nesse capítulo, o reformador aborda o ensino dos "Fanáticos", como eram conhecidos na época, a partir da inseparável relação entre o Espírito e a Palavra.(20)

O Espírito Fala pelas Escrituras
O ponto central de Calvino era que o Espírito fala pelas Escrituras . Não que o Espírito estivesse restrito à Pregação da Palavra e aos sacramentos, mas sim que Ele não pode ser dissociado de ambos. O Espírito havia sido dado à Igreja, não para trazer novas revelações, mas para nos instruir nas palavras de Cristo e dos profetas. De acordo com Calvino, o Espírito sela nossas mentes quando ouvimos e recebemos com fé a palavra da verdade, o Evangelho da salvação (Ef 1.13). Ele limita-se a guiar os crentes e a iluminar seus entendimentos naquilo que ouviu e recebeu do Pai e do Filho, e não de Si mesmo (Jo 16.13). Como o ensino divino se encontra nas Escrituras, a obra do Espírito consiste em iluminá-las, fazendo com que esse ensino seja entendido pelos fiéis.
Contra o desprezo pelas Escrituras da parte de muitos "Entusiastas," Calvino citava o exemplo do apóstolo Paulo, que mesmo tendo sido arrebatado ao terceiro céu, onde recebeu revelações extraordinárias (2 Co 12.2), ainda assim jamais desprezou as Escrituras, como se fossem uma forma inferior de revelação, mas as reconheceu como suficientes e eficazes, pela graça do Espírito, para edificar a Igreja em todas as coisas concernentes ao reino de Deus (2 Tm 3.15-17; cf. 1 Tm 4.13).(21)

O Espírito é reconhecido pela sua harmonia com as Escrituras
Outro ponto importante destacado por Calvino nas Institutas era que a atuação do Espírito Santo poderia ser reconhecida pela sua harmonia com as Escrituras, as quais haviam sido inspiradas pelo próprio Espírito.(22) Calvino desejava apresentar um critério pelo qual a Igreja pudesse discernir de forma segura, no âmbito da experiência religiosa, o que realmente procedia da parte do Espírito de Deus, ou de espíritos enganadores. Para ele, havia somente um critério seguro e infalível: o Espírito falando nas Escrituras. Assim, não haveria qualquer diminuição do poder e da glória do Espírito Santo ao concordar com elas, já que Ele as havia inspirado. Seria concordar consigo mesmo, e qual a desonra que poderia haver nisto? Testar as manifestações supostamente provenientes do Espírito, usando-se o crivo das Escrituras, era, na realidade, agradável a Ele, pois Ele mesmo havia determinado que a Igreja assim procedesse com as manifestações espirituais.(23) Para Calvino, não poderia haver qualquer contradição entre o ensino bíblico e a atuação do Espírito nos tempos pós-apostólicos; e é por esta razão que ele frequentemente se refere às Escrituras como "a imagem do Espírito."(24)

A Soberania do Espírito
Um último ponto ao qual desejo me referir é a insistência de Calvino sobre a soberania do Espírito Santonesta relação íntima com a Palavra de Deus. Para ele, a Palavra é o instrumento pelo qual Deus dispensa a iluminação do Espírito aos crentes.(25) Assim, Cristo fala hoje através do ministro do Evangelho, quando o mesmo expõe fielmente a Palavra. O Espírito torna eficaz a Palavra exposta nos corações dos que a ouvem. Ao mesmo tempo, a relação Espírito-Palavra não é mágica, ou automática. A Palavra não é como um talismã , que sempre que invocado, libera seu poder mágico, ao bel-prazer do seu possuidor. A eficácia da Palavra, ao contrário, está totalmente na dependência da soberania do Espírito. (26) Para Calvino, a afirmação de Paulo de que somos ministros de uma nova aliança, do Espírito que vivifica (2 Co 3.6), não é uma garantia de que nossa pregação sempre será acompanhada pelo poder vivificador do Espírito. Pastores não retém o poder de dispensar a graça do Espírito a qualquer um que desejem, e quando o desejem. É por um ato soberano que o Espírito torna a Palavra pregada em Palavra eficaz.(27)
Assim, a eloquência, a habilidade, a erudição e o fervor do pregador de nada adiantam, se a graça e o poder do Espírito não estiverem presentes. E assim ocorre porque, o mérito sempre deve ser de Cristo ,
e não dos pregadores.

A Influência de Calvino na Confissão de Fé de Westminster
A Confissão de Fé de Westminster, adotada pela Igreja Presbiteriana do Brasil, foi elaborada no século XVII, quase um século após a morte de Calvino, por pastores e teólogos Puritanos, reunidos com este fim pelo Parlamento Inglês, na Assembléia de Westminster. O alvo dos eruditos ali reunidos durante vários anos era um só: formular de forma sistemática a doutrina bíblica, partindo dos princípios de interpretação herdados da Reforma. A Igreja Presbiteriana tem adotado essa Confissão como a expressão correta do ensino das Escrituras. Os seus autores foram profundamente influenciados por João Calvino. Esta influência se percebe claramente no ensino da Confissão sobre o Espírito Santo, e em especial, na relação do Espírito com a Palavra.
Assim, no seu capítulo sobre as Escrituras, a Confissão declara, nos melhores termos calvinistas, que a autoridade da Escritura não depende do testemunho do homem ou da Igreja, mas de Deus ( I, 4), que a nossa certeza da sua infalível verdade e autoridade divina provém do testemunho do Espírito Santo em nossos corações (I, 5), que à Escritura nada se acrescentará em tempo algum, nem por novas revelações do Espírito, nem por tradições de homens (I, 6). A Confissão reafirma, com Calvino, que é necessária a íntima revelação do Espírito de Deus para a compreensão salvadora das coisas reveladas na Palavra (I, 6), e que, finalmente, o Juiz Supremo pelo qual todas as controvérsias religiosas têm de ser examinadas é o Espírito Santo falando nas Escrituras (I, 8).

Relevância do Ensino de Calvino para Nós Hoje 


A Época em que Vivemos
A influência do movimento neopentecostal, surgido na década de sessenta, tem-se feito sentir de forma profunda nas denominações evangélicas históricas, e também dentro da Igreja Presbiteriana do Brasil. Não podemos tratar o movimento como um bloco monolítico — existem, dentro dele, diversas correntes e ramificações, o que faz com que generalizações tornem-se injustas. Mas, onde aparece com toda a liberdade, o neopentecostalismo manifesta a crença em novas revelações através de profecia e línguas, visões e sonhos, todos atribuídos ao Espírito Santo, e em alguns casos, práticas estranhas ao Cristianismo histórico, que são atribuídas ao poder do Espírito Santo, como "cair" no Espírito, o "sopro" do Espírito, o "riso santo", característica principal do movimento conhecido como "a bênção de Toronto". Há pastores que pretendem ter controle sobre o Espírito Santo, que presumem concedê-lo pela imposição de mãos, lançá-lo sobre o povo, girando o paletó, soprando sobre eles, etc., como o conhecido carismático Benny Hinn. Estes super-pastores determinam até mesmo quando o Espírito vai curar ou agir, pois marcam com antecedência reuniões de cura e libertação, coisa que nem mesmo o Senhor Jesus e os apóstolos fizeram.
A Igreja Presbiteriana está aturdida, tomada de surpresa, por estes ensinos. Muitas de suas igrejas locais têm adotado, em maior ou menor medida, as doutrinas e práticas do neopentecostalismo. Podemos receber ajuda do ensino de Calvino, nesta hora?

Em que o Ensino de Calvino nos Ajuda Hoje?
Em primeiro lugar, o ensino de Calvino sobre o testemunho interno do Espírito vem lembrar à Igreja que, nestes tempos difíceis, ela deve buscar de Deus a íntima iluminação do Espírito para compreender e aplicar as Escrituras à sua vida e missão. Corremos o risco de pensar que Calvino, em sua luta contra os excessos dos "Entusiastas", caiu no extremo do academicismo frio. Balke nos relata o que de fato ocorreu: "Calvino, o teólogo do Espírito Santo, queria guardar-se contra o fanatismo, sem porém impedir a liberdade do Espírito."(28) Como Calvino, devemos nos guardar dos excessos de hoje, ao mesmo tempo em que, submetendo-nos à liberdade do Espírito, procuramos a sua iluminação. Mas, para isto, é necessário arrependimento e saneamento da vida das igrejas locais, dos conselhos, concílios, organizações e instituições eclesiásticas que compõem a IPB. É preciso nos voltarmos a Deus em oração, suplicando a iluminação do Espírito, como bem orienta a Carta Pastoral da Igreja Presbiteriana do Brasil sobre o Espírito Santo:
Ao mesmo tempo em que orienta a Igreja a guardar-se de uma interpretação das Escrituras que parte dos princípios hermenêuticos equivocados da experiência neopentecostal, a Igreja também adverte contra uma interpretação intelectualizada e árida das Escrituras, que se esquece da necessidade da iluminação do Espírito para sua compreensão e de que Deus promete ensinar àqueles que procuram andar em santidade e retidão (Sl 119.18, 33-34; Lc 24.44-45).(29)
Em segundo lugar, Calvino nos desafia a examinar todas as manifestações espirituais pelo crivo da Palavra de Deus, quanto à natureza, ao propósito, e ao modo destas manifestações. Essa prática está pressupondo corretamente o ensino bíblico de que o Espírito Santo não se contradiz. As Escrituras foram inspiradas por ele. Embora o Espírito aja de formas distintas em épocas distintas, jamais o faz em contradição ao que nos revelou na Palavra. Deveríamos estar abertos para o fato de que o Espírito tem enfatizado aspectos diferentes da Palavra em épocas diferentes — porém, jamais indo além dela ou contra ela.
Em terceiro lugar, o ensino de Calvino nos alerta contra os que pretendem ter total controle sobre o Espírito, que pretendem dispensar o batismo do Espírito pela imposição de mãos, que "ensinam" aos crentes imaturos e incautos a falar em línguas. Alerta-nos a rejeitar todo ensino, movimento, culto, liturgia, onde a Palavra de Deus não receba a devida proeminência. Se o Espírito fala pela Palavra, a Palavra deve ser o centro.
Muitos presbiterianos consideram-se calvinistas e reformados, mas quantos realmente percebem as implicações do ensino calvinista reformado sobre a obra do Espírito para as práticas neopentecostais que são aceitas em muitas das nossas igrejas? Calvino foi, de fato, um homem do Espírito Santo, que guiado por Ele, tornou-se o principal instrumento de Deus para a Reforma do século XVI, movimento que, na realidade, foi um dos maiores reavivamentos espirituais ocorridos na Igreja Cristã, após o período apostólico. Todos nós queremos um reavivamento espiritual, da mesma magnitude. Calvino, que viveu e ministrou em meio àquela tremenda manifestação de poder divino, não teve receio de ofender o Espírito por inquirir, de forma profunda e meticulosa, sobre a genuinidade dos fenômenos que sempre acompanham os grandes movimentos espirituais da História. Se por um lado não devemos ter medo do que o Espírito possa fazer, por outro, devemos temer a obra espúria dos espíritos enganadores, e do nosso próprio coração enganoso.
E por fim, vale a pena mencionarmos que "a era do Espírito Santo", como é conhecida em muitos meios neopentecostais, iniciou-se, não em 1906, com a reunião na rua Azuza, nos Estados Unidos, mas desde o dia de Pentecoste. As evidências bíblicas são numerosas. Em seu sermão no dia de Pentecoste, o apóstolo Pedro declarou que a descida do Espírito estava inaugurando os últimos dias (At 2.16-21). Os demais apóstolos ensinaram, semelhantemente, que os últimos dias, a dispensação anterior ao dia do julgamento final, já havia chegado ( 1 Co 7:29; 1 Jo 2.18). Enfatizo esse ponto pois alguns poderiam argumentar que estamos vivendo hoje na "era do Espírito", e que Calvino viveu antes dessa época. Os que assim acreditam, afirmam que hoje o Espírito está agindo de uma forma muito mais intensa, e mesmo, diferente, da época da Reforma, e que, portanto, o que Calvino experimentou e ensinou está, num certo sentido, ultrapassado. Entretanto, as Escrituras nos ensinam que a Igreja já está vivendo os últimos dias, a dispensação do Espírito, desde o período apostólico. Calvino viveu e ensinou em plena época do Espírito, tanto quanto nós hoje vivemos e labutamos. O ensino de Calvino, por ser bíblico, pode nos servir de balizamento, indicando-nos o estreito caminho do equilíbrio, entre uma vida de piedade e uma mente firmada nas antigas doutrinas da graça.

NOTAS:
1 Jown Owen, The Holy Spirit: His Gifts and Power (Grand Rapids: Kruegel, 1960); Abraham Kuyper, The Work of the Holy Spirit (Grand Rapids: Eerdmans, 1946). Outros autores poderiam ser acrescentados, como o Puritano inglês Thomas Goodwin, e mais recentemente, Benjamim B. Warfield e George Smeaton.
2 Cf. João Calvino, As Institutas, ou Tratado da Religião Cristã , 4 vols., trad. Waldyr C. Luz (São Paulo: CEP e Luz para o Caminho, 1989). Calvino trata da divindade do Espírito em I.13.14-14, e da sua obra redentora (aplicando a salvação) no livro III, especialmente nos capítulos 1-2.
3 O termo "esquerda" tem sido empregado recentemente por alguns historiadores para se referir a esse grupo, sem qualquer conotação política.
4 Cf. a nota introdutória de B. Warfield em Kuyper, The Work of the Holy Spirit , xxvii.
5 Para uma lista das obras mais importantes sobre o Espírito Santo escritas após Calvino nos séculos XVII e XVIII, ver Kuyper, The Work of the Holy Spirit , lx-x.
6 Kuyper, The Work of the Holy Spirit , xxxiii-xxxiv.
Institutas , I.7.2; IV.2.1,9. Veja ainda Calvin's Commentaries , vol. 21, trad. W. Pringle (Grand Rapids: Baker, 1981) 242-44.
Institutas , I.7.1. Veja também os capítulos 7-9 do livro I, onde Calvino desenvolve o tema da autoridade das Escrituras.
Institutas , III.1.1; I.7.5.
10 Institutas , I.8.13; I.7.4. Cf. Ronald S. Wallace, Calvin's Doctrine of the Word and Sacrament (Grand Rapids: Eerdmans, 1957) 101-2.
11 Institutas , III.1.1; III.2.33-34; II.2.20; I.7.5. Veja ainda Calvin's Commentaries , vol. 20, 116-17, e vol. 22, 257.
12 Calvin's Commentaries , vol. 18, 101.
13 Devemos, com justiça, notar que Calvino deve muito dessa perspectiva ao ensino desbravador de M. Lutero, que já havia, antes dele, denunciado esse estado de coisas.
14 Veja acima nota .
15 William Balke, Calvin and the Anabaptist Radicals , trad. W. Heynem (Grand Rapids: Eerdmans, 1981) 2.
16 Para uma análise mais profunda do debate de Calvino com os Anabatistas consulte Balke, Calvin and the Anabaptist Radicals . Resumos sobre o movimento Anabatista durante a Reforma poderão ser encontrados nos livros clássicos em Português de História da Igreja, como Robert Nichols, W. Walker e Justo Gonzalez (vol. 6).
17 Esta obra se encontra publicada em Francês na coleção Corpus Reformatorum , ed. C.G. Bretschneider (Halle, 1834-1860), vol. 7, 145-248.
18 Institutas , I, 9, 1.
19 Institutas , I, 9, 2.
20 Para um estudo mais aprofundado, veja W. Kreck, "Wort und Geist bei Calvin", em Festchrift für Günther Dehn (Neukirchen, 1957) 168-173.
21 Institutas , I, 9, 1; cf. Wallace, Calvin's Doctrine of the Word and Sacrament , 130.
22 Institutas , I, 9, 2.
23 Institutas , I, 9, 2. Passagens como 1 Co 12.1-3, 14.29 e 1 Jo 4.1, entre outras, estabelecem critérios doutrinários pelos quais pode-se julgar as profecias e os profetas.
24 Institutas , I, 9, 2-3.
25 Ibid .
26 Calvin's Commentaires , vol. 22, 102-3.
27 Calvin's Commentaires , vol. 20, 174; veja ainda Wallace, Calvin's Doctrine of the Word and Sacrament , 89-90.
28 Balke, Calvin and the Anabaptist Radicals , 326.
29 O Espírito Santo Hoje - Os Dons de Línguas e Profecia", em Cartas Pastorais (São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1995). O documento foi elaborado pela Comissão Permanente de Doutrina da IPB.



Sobre o autor:
Dr. Augustus Nicodemus G. Lopes 
Doutorou-se em Hermenêutica e Estudos Bíblicos (Ph.D., NT) no Westminster Theological Seminary (1993). É Chanceler da Universidade Presbiteriana Mackenzie e pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil. É autor de vários livros, entre eles "Calvino, o Teólogo do Espírito Santo" (1996), "O que Você Precisa Saber sobre Batalha Espiritual" (1997), "Calvino e a Responsabilidade Social da Igreja" (1997), "A Bíblia e a Sua Família" (2001), "O Culto Espiritual" (2001), "A Bíblia e Seus Intérpretes" (2004), além de diversos artigos.

terça-feira, 18 de julho de 2017

O DOM DE LÍNGUAS.

O Dom de línguas – 1 Coríntios 14:13



Os irmãos da igreja de Corinto estavam fazendo o uso errado do dom de línguas. Quando lemos especialmente o capítulo 14, percebemos que eles:
1) Não usavam o dom com o propósito evangelístico, pois falam de maneira que os estrangeiros não entendiam – versos 9 e 11;
2) Preocupavam-se mais em “aparecer” do que edificar a igreja – versos 22 e 12;
3) Quando alguém falava em línguas (no grego, o termo significa “idiomas”), tal pessoa não sabia o que dizia ou não possuía um intérprete para ajudá-la – versos 13 e 27;
4) Usavam o dom de forma desordenada – versos 27, 33 e 40.
Com base nesse contexto fica mais fácil compreendermos 1 Coríntíos 14:13. Paulo está dizendo, em outras palavras: “se não há uma pessoa que interprete o dom, então, você que fala em línguas, ore para que Deus dê a você a capacidade de traduzir para os estrangeiros que assistem ao culto a fim de que eles entendam a mensagem e aceitem a Jesus como Salvador”.
Embora alguns cristãos creiam que o dom de línguas em 1 Coríntios 14 seja diferente, ou seja, de uma forma “estática” e “ininteligível”, acreditamos ser ele da mesma natureza de Atos 2, Atos 10 e 19 (assim como em Marcos 16:17) por vários motivos, entre eles:
1) A expressão grega para “língua”, usada em Coríntios é a mesma utilizada em Atos 2: “glôssa”, que significa “língua de nações” ou “idiomas”;
2) O verbo grego “falar” – “laléo” no mesmo capítulo refere-se à “linguagem humana usual”, do “dia-a-dia”;
3) Na expressão “línguas estranhas”, o termo “estranhas” não se encontra no original grego, contrariando assim a ideia de alguma manifestação incompreensível do dom. Veja a tradução da Nova Versão Internacional: “Pois quem fala em uma língua [ou outro idioma] não fala aos homens, mas a Deus. De fato, ninguém o entende; em espírito fala mistérios” 1 Coríntios 14:2..
Desse modo, o dom de línguas de 1 Coríntios 14 (e de outros textos) era o mesmo dado pelo Espírito Santo na ocasião do Pentecostes. E, o problema na igreja de Corinto girava em torno da forma desordenada como o dom era usado.
O dom de línguas tem propósitos evangelísticos. Se o evangelho não for compreendido, as pessoas não serão salvas.
Biblicamente, há apenas um tipo de dom de línguas: aquele pelo qual as pessoas entendem a vontade de Deus para a vida delas.
Espero ter lhe ajudado. Conte comigo sempre que precisar – ok?
Um abraço,
Leandro Quadros
Jornalista e Consultor bíblico

LÍNGUA UM SINAL PARA OS INCRÉDULOS.

Línguas Foram Um Sinal Para O Incrédulo Israel




       
 Uma verdade fundamental sobre as línguas bíblicas é que elas foram, principalmente, um sinal para Israel de que Deus estava estendendo o evangelho a todas as nações. Paulo esclareceu isto em suas instruções à igreja de Corinto, conforme a 1 Coríntios 14:20-22: “Irmãos, não sejais meninos no entendimento, mas sede meninos na malícia, e adultos no entendimento. Está escrito na lei: Por gente de outras línguas, e por outros lábios, falarei a este povo; e ainda assim me não ouvirão, diz o Senhor. De sorte que as línguas são um sinal, não para os fiéis, mas para os infiéis; e a profecia não é sinal para os infiéis, mas para os fiéis.”
          Os coríntios estavam abusando dos dons espirituais e, particularmente, enamorados pelas línguas. Como meninos espirituais  (1 Coríntios 3:1), eles estavam se exibindo uns aos outros. Paulo os admoesta a deixarem de ser meninos para se tornarem homens, quando entendessem o verdadeiro propósito das línguas. Estas eram o cumprimento da profecia de Isaías 28:11- 12, a qual foi dirigida aos judeus: “Assim por lábios gaguejantes, e por outra língua, falará a este povo. Ao qual disse: Este é o descanso, dai descanso ao cansado; e este é o refrigério; porém não quiseram ouvir”.
          As línguas miraculosas foram um sinal para os judeus incrédulos, [sinal] de que Deus estava falando a todas as nações e convocando todos os homens para um corpo espiritual composto tanto de judeus como de gentios. “Este povo” se refere à nação judaica da qual o profeta estava falando.
Sempre que vemos  o dom de línguas sendo exercido no Livro de Atos, os judeus estavam presentes. (Atos 2:6-11;10:46;19:6). No Dia de Pentecoste e em Atos 19 foram os próprios judeus que falaram em línguas.
        Fernand Legrand, um ex-pentecostal, faz a seguinte importante observação:

        “Convém notar que, onde quer que o sinal apareça, é sempre na presença dos judeus. E, onde não se encontram judeus, como em Atenas e Malta, também não se encontra o sinal... A exata natureza do sinal está onde se encontra a natureza de sua descrença...  O sinal denunciava ou corrigia sua falta de fé referente à salvação dos que falavam as línguas que eram estranhas à sua própria língua, isto é, os gentios... Mas nisto era exatamente no que os judeus não desejavam acreditar. De fato, eles eram os que ‘... também mataram o SENHOR Jesus e os seus próprios profetas... e ... impedem de pregar aos gentios as palavras da salvação, a fim de encherem sempre a medida de seus pecados; mas a ira de Deus caiu sobre eles até ao fim’... (1 Tessalonicenses 2:15- 16. A ideia de agora se tornarem um com os estrangeiros era mais do que os judeus do primeiro século podiam suportar.  Este simples pensamento foi suficiente para deslanchar o seu ativismo hebraico. Mesmo assim, esta seria a primeira coisa que eles deveriam entender e, finalmente, admitir. Portanto, Deus lhes deu o melhor sinal possível para fazê-los entender o que eles não queriam admitir. ELE OS FEZ, MIRACULOSAMENTE, FALAR NAS LÍNGUAS ESTRANGEIRAS. AO FAZÊ-LO, DEUS COLOCOU O LOUVOR JUDAICO NESTAS LÍNGUAS PAGÃS.

          “Uma simples, porém atenta leitura da Bíblia revela o cenário da ferrenha oposição relacionada a qualquer coisa que não fosse essencialmente judaica. Vemos Jonas odiar os homens de Nínive ao ponto de desobedecer a Deus... Em sua frustração ele chega ao extremo de pedir a própria morte. Se Nínive vive, Jonas deve morrer! Este espírito de oposição e descrença seria apenas reforçado, durante os séculos. Os judeus pertencem a Yahveh e Yahveh aos judeus, num íntimo círculo de fanatismo; todo mundo, exceto eles, é amaldiçoado...

          
Ousar sugerir que pessoas com línguas diferentes de sua própria língua poderiam ser beneficiadas pela bondade de Deus, era arriscar a própria vida. Eles levaram Jesus ‘até ao cume do monte em que a cidade deles estava edificada, para dali o precipitarem’ (Lucas 4:29), porque Ele havia dito: ‘Em verdade vos digo que muitas viúvas existiam em Israel nos dias de Elias, quando o céu se cerrou por três anos e seis meses, de sorte que em toda a terra houve grande fome; e a nenhuma delas foi enviado Elias, senão a Sarepta de Sidom, a uma mulher viúva. E muitos leprosos havia em Israel no tempo do profeta Eliseu, e nenhum deles foi purificado, senão Naamã, o sírio’ (Lucas 4:25-27). Aos olhos deles isto significava mais do que merecer a própria morte.

“Que narrativa a de Atos 21:40-22:1-3!
 O prisioneiro Paulo, a caminho da fortaleza, ‘pondo-se em pé nas escadas, fez sinal com a mão ao povo; e, feito grande silêncio, falou-lhes em língua hebraica, dizendo: (Atos 21:40) “HOMENS, irmãos e pais, ouvi agora a minha defesa perante vós. (E, quando ouviram falar-lhes em língua hebraica, maior silêncio guardaram). E disse: Quanto a mim, sou judeu, nascido em Tarso da Cilícia, e nesta cidade criado aos pés de Gamaliel, instruído conforme a verdade da lei de nossos pais, zeloso de Deus, como todos vós hoje sois.’ (Atos 22:1-3)... ‘E disse-me: Vai, porque hei de enviar-te aos gentios de longe. E ouviram-no até esta palavra, e levantaram a voz, dizendo: Tira da terra um tal homem, porque não convém que viva’. (Atos 22:21-22). O que os fez explodir desse modo? Foi a simples ideia de que Yahveh pudesse ser o Deus de todos os homens e de toda língua.

          “Agora fica mais fácil entender por que o falar em línguas é um sinal desta grande verdade e que ‘para este povo’ foi um meio de acesso ao mesmo...

          “Eles precisavam apenas se convencer a  abandonar sua crença particular e a não mais considerar impuros o povo e as línguas que Deus considerava bastante puras para serem faladas pelo Espírito Santo... Este sinal em línguas estranhas, assim como a tripla visão de Pedro, ensinou-os que a salvação era para ‘qualquer pessoa’, para ‘toda a carne’ e para ‘toda língua’...

          “Mas QUEM, na igreja de hoje, composta de tribos, raças, nações e línguas, QUEM ainda precisa ser convencido por um constante sinal de que o Espírito de Deus está sendo derramado sobre todos os povos, nações, tribos e línguas?” (Legrand, “All About Speaking in Tongues”, pp. 24-27; 33).

          É impossível ter uma doutrina correta das línguas sem compreender que elas foram um sinal para a nação de Israel sobre a coisa nova que Deus estava fazendo, que era estender o Evangelho a todos os homens, trazendo tanto os judeus como os gentios a um novo corpo espiritual. A necessidade deste sinal cessou completamente, no primeiro século. No ano 70 d.C., Jerusalém foi destruída pelos exércitos romanos comandados por Tito e os judeus foram dispersos pelas nações. Nesse tempo, os judeus já haviam ido a Cristo às dezenas de milhares e as igrejas dos gentios haviam sido estabelecidas através do Império Romano.  O propósito do dom de línguas como um sinal para a nação de Israel havia terminado. Por tê-lo rejeitado, Israel foi julgado, exatamente conforme os profetas haviam predito.
          “Assim por lábios gaguejantes, e por outra língua, falará a este povo. Ao qual disse: Este é o descanso, dai descanso ao cansado; e este é o refrigério; porém não quiseram ouvir. Assim, pois, a palavra do SENHOR lhes será mandamento sobre mandamento, mandamento sobre mandamento, regra sobre regra, regra sobre regra, um pouco aqui, um pouco ali; para que vão, e caiam para trás, e se quebrantem e se enlacem, e sejam presos” (Isaías 28:11-13).
Isaías não apenas profetizou que Deus iria dar o sinal das línguas a Israel como também profetizou que Israel iria rejeitá-lo e por isso seria julgado, o que de fato aconteceu.
Na 1 Coríntios 13, Paulo ensinou à igreja de Corinto que as línguas cessariam: “O amor nunca falha; mas havendo profecias, serão aniquiladas; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, desaparecerá; porque, em parte, conhecemos, e em parte profetizamos. Mas, quando vier o que é perfeito, então o que o é em parte será aniquilado”. - (1 Coríntios 13:8).
          Esta passagem fala dos dons reveladores da profecia, línguas e conhecimento. Não são as línguas que vão cessar, mas o dom de línguas.
Quando cessarão estes dons? A passagem indica que eles vão cessar em duas etapas. O dom de línguas é tratado separadamente dos dons da profecia e do conhecimento. O dom de línguas é mencionado no verso 8 e não mais é mencionado, quando os dons da profecia e do conhecimento são mencionados, novamente, nos versos 9-10. Creio que isto nos ensina que o dom de línguas iria cessando por si mesmo {*}, antes dos outros dois dons {**} . Podemos ver isto no Livro de Atos. A última vez que vemos o falar em línguas é em Atos 19 [cerca do ano 53]. A partir daí, na igreja histórica, não houve mais dúvida de que Deus estava chamando os gentios através do Evangelho. Este assunto já havia se tornado meridianamente claro.{* Nota de Hélio: O dom de varões adultos falarem em idiomas estrangeiros (sempre na presença de judeus descrentes da extensão da graça de Deus a todos os povos, e sempre na presença e atestando a exclusividade dos 83 apóstolos e discípulos, ver 2Co 12:12) iria progressivamente cessar por si mesmo, tendo totalmente cessado a si mesmo em torno da Diáspora do ano 70}
{* Nota de Hélio: Os dons (exclusivos e identificatórios dos 83 apóstolos e discípulos
, ver 2Co 12:12) de varões adultos profetizarem trazendo novas revelações, escreverem palavras que Deus assoprava para dentro deles a fim de fazerem parte da Bíblia, e sempre demonstrarem perfeita ciência, seriam cessados súbita, total e definitivamente, com a morte do último deles, João, por volta do ano 100}


        Uma vez que o sinal já havia cumprido o seu propósito, seria tolice continuar com o mesmo. Se eu precisasse dizer a alguém à minha espera, no aeroporto, que ele iria me reconhecer porque eu estava usando um chapéu vermelho, o vermelho seria o sinal. Quando nos encontrássemos e ele me reconhecesse pelo sinal do chapéu, a necessidade do sinal teria cessado. Se eu pensasse que teria de usar o chapéu vermelho pelo resto da vida, isto seria tolice.
          Do mesmo modo, o dom de línguas cessou, antes mesmo que os eventos do Livro de Atos fossem concluídos, enquanto os dons da profecia e do conhecimento continuaram operando, até que “viesse o que é perfeito”, ou seja, o Cânon da Sagrada Escritura.
 
          “A 2 Timóteo 3:16-17 diz que “Toda a Escritura é divinamente inspirada, e proveitosa para ensinar, para redargüir, para corrigir, para instruir em justiça; para que o homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente instruído para toda a boa obra”.
            Os dons da profecia e do conhecimento foram usados pelos profetas e apóstolos, a fim de ser completado o Cânon da Escritura e, em seguida, desapareceram. O último livro da Escritura a ser escrito foi o Livro do Apocalipse. João o escreveu em provecta idade, em cerca de 96 d.C., na Ilha de Patmos, e o concluiu com a solene admoestação divina, conforme Apocalipse 22:18-19: “Porque eu testifico a todo aquele que ouvir as palavras da profecia deste livro que, se alguém lhes acrescentar alguma coisa, Deus fará vir sobre ele as pragas que estão escritas neste livro; e, se alguém tirar quaisquer palavras do livro desta profecia, Deus tirará a sua parte do livro da vida, e da cidade santa, e das coisas que estão escritas neste livro”.
            Isto se aplica não somente ao Livro do Apocalipse, mas também a todo o Livro do qual o Apocalipse é o capítulo final.
          “A clara doutrina bíblica sobre as línguas refuta, definitivamente, todo o moderno falar em “línguas”. Quando os alunos da Escola Bíblica de Charles Panham começaram a falar em “línguas”, em 1901, ou quando as “línguas” ecoaram na Azuza Street, em 1906, quais os judeus que estavam ali presentes? Se os judeus estivessem presentes, de que maneira o falar em línguas poderia ser um sinal de que Deus estava estendendo o Evangelho a todas as nações e criando um novo corpo [a igreja] através do Evangelho, se o sinal já havia sido dado 1.900 anos antes? De que maneira este sinal faltou ser cumprido no primeiro século? Estas são perguntas difíceis que cada pentecostal e carismático deve responder.  Se alguém insistisse que os judeus ainda precisam do sinal de línguas, iríamos indagar: “Por que, então, os movimentos pentecostais ignoram, quase totalmente, este aspecto das línguas?” Panham em Topeka e Seymour em Los Angeles não buscaram línguas como um sinal para Israel, mas como um sinal do “batismo no Espírito Santo”. O mesmo acontece com as Assembleias de Deus, as Igrejas de Deus da Profecia, os pentecostais do Evangelho Quadrangular, e outros...

        “Alguém, após ler o meu livro,  falou: “Para você, tudo se resume a um sinal!” Claro que sim! Tome um poste com placa de sinalização, por exemplo; você pode discutir à vontade sobre a sua altura, aparência, cor, fosforescência e tamanho das letras; contudo, por mais exatas que sejam as suas observações, é impossível você escapar do fato de que o propósito final dele é ser um poste de sinalização. O mesmo acontece com o falar em línguas. Contudo, você deve notar que o Espírito Santo disse que este foi um sinal para o incrédulo Israel. Neste assunto e em outros, deve-se observar que as regras do jogo não estão sendo seguidas” (Fernand Legrand  “All About Speaking in Tongues”, p. 67).

 
“Tongues Were a Sign to Unbelieving Israel ” - David Cloud
Traduzido por Mary Schultze, em 08/04/2010.

KLEBER LUCAS: "NINGUÉM PRECISA CRER IGUAL".

Kléber Lucas diz no Encontro que ninguém precisa “crer igual” Discurso do programa é que Deus criou todas as religiões “Todas as r...