sexta-feira, 13 de junho de 2014

Repensando o Progresso









O evangelho tem feito com que eu reconsidere a forma típica de pensamento que temos sobre crescimento cristão. Ele tem me feito repensar as medidas espirituais e a maturidade; o que significa mudar, desenvolver, crescer; o que a busca pela santidade e a prática da piedade realmente significam.


O que tem acontecido comigo é muito similar com o que aconteceu quando me tornei calvinista, no inverno de 1995. Tudo mudou. Eu comecei a ler a Bíblia com novos olhos. A soberania de Deus e a doçura de sua graça incondicional estavam em TODO LUGAR! Lembro-me de pensar “Como eu não vi isso antes? A Bíblia inteira fala disso.”


Bom, a mesma coisa tem acontecido comigo em relação a como eu penso sobre o crescimento cristão. Se levarmos a sério uma leitura da Bíblia que aponta para Cristo; se formos consistentes quando se trata de evitar uma interpretação moralista da Bíblia; se formos persistir em nossa devoção a um entendimento das muitas partes da Bíblia à luz do contexto maior do drama da redenção, então precisamos repensar a forma como natural e tipicamente entendemos o que significa “ponham em ação a salvação de vocês com temor e tremor” (Filipenses 2.12).


Em seu filme de 2008 Fim dos Tempos, o escritor, produtor e direto M. Night Shyamalan desenvolve uma trama meio descabida sobre uma toxina misteriosa e invisível que leva àquele que for exposta a ela ao suicídio. Um dos primeiros sintomas de que a vítima inalou essa autodestrutiva toxina é começar a andar para trás – sinalizando que qualquer instinto natural de prosseguir vivendo e de lutar pela sobrevivência foi revertido. O mecanismo padrão de defesa da vítima foi virado de cabeça para baixo.


Isso é, de certa forma, o que precisa acontecer conosco quando se trata da forma como pensamos sobre o progresso na vida cristã. Quando inalada, a radical, incondicional e gratuita graça de Deus reverte cada instinto natural relacionado a “sobreviver e prosperar” espiritualmente. Apenas a “toxina” da graça de Deus pode reverter a forma como pensamos tipicamente sobre o crescimento cristão.


Por uma série de razões, quando se trata de mensurar crescimento e progresso espiritual, nossos instintos naturais giram quase que exclusivamente em torno de melhoria comportamental. Isso é compreensível.


Por exemplo, quando lemos passagens como Colossenses 3.5-17, onde Paulo exorta a igreja em Colossos a “se revestirem do novo [homem]” ele usa muitos exemplos comportamentais: fazer morrer “imoralidade sexual, impureza, paixão, desejos maus, e a ganância, que é idolatria”. Ele continua e exorta-os a abandonar “ira, indignação, maldade, maledicência, linguagem obscena no falar” e assim por diante. No v. 12 ele muda a marcha e lista muitas coisas para aplicarmos: “bondade, humildade, mansidão, e paciência” citando apenas alguns.


Mas o que está na raiz desse bom e mau fruto? O que produz tanto o bom quanto o mau comportamento que Paulo traz aqui?


Toda tentação ao pecado é uma tentação, no momento, para desacreditar o evangelho – a tentação de garantir para mim, naquele momento, alguma coisa que eu acho que eu preciso para ser feliz, algo que eu ainda não tenho: propósito, liberdade, confirmação, e assim por diante. O mau comportamento acontece quando nós falhamos em acreditar que tudo que preciso, em Cristo eu já tenho; isso acontece quando nós falhamos em acreditar na rica provisão de recursos que já são nossos no evangelho. Por outro lado, bom comportamento acontece quando recebemos e descansamos diariamente no “Está consumado” de Cristo em novas e profundas partes do nosso ser diariamente – em nossas áreas de rebeldia e descrença (o que o escritor chama de “nossos territórios não evangelizados”) esmagando qualquer sentimento de necessidade de assegurar para nós mesmos qualquer coisa além do que Cristo já havia assegurado para nós.


Colossenses 3.5-17, em outras palavras, providencia uma ilustração do que acontece do lado de fora quando algo profundo acontece (ou não acontece) do lado de dentro.


Então, voltando a Filipenses 2.12, quando Paulo nos fala “ponham em ação a salvação de vocês com temor e tremor” ele está tornando claro que temos trabalho a fazer – mas o que exatamente é essa ação? Ser melhor? Tentar mais? Purificar seus atos? Orar mais? Ser mais envolvido na igreja? Ler mais a Bíblia? O que, precisamente, Paulo está nos exortando a fazer? Claramente, não é uma questão de se esforço faz-se necessário ou não. A real questão é onde estamos focando nossos esforços? Estamos trabalhando duro para um melhor desempenho? Ou estamos trabalhando duro para descansar no desempenho de Cristo por nós?


Ele explica: “pois é Deus quem efetua em vocês tanto o querer quanto o realizar, de acordo com a boa vontade dele” (2.13). Deus faz a Sua obra em você – a qual é a obra já realizada por Cristo. Nosso árduo trabalho, portanto, significa chegar a um melhor entendimento do trabalho dEle. Como mencionado em artigos anteriores, em suas Palestras em Romanos, Martinho Lutero escreveu, “Progredir é sempre começar de novo”. O verdadeiro progresso espiritual, em outras palavras, requer um retrocesso diário.


Eu costumava pensar que quando o Apóstolo Paulo nos diz para por em ação a nossa salvação, isso significava sair e conseguir o que você não tem – ter mais paciência, ter mais força, ter mais contentamento, ter mais amor, e assim sucessivamente. Mas depois de ler a Bíblia com mais atenção, agora consigo entender que o crescimento cristão não acontece trabalhando arduamente ou adquirindo alguma coisa. Pelo contrário, o crescimento cristão ocorre trabalhando duro diariamente em mergulhar na realidade que você já faz parte. Acreditar novamente no evangelho da graça justificadora de Deus todos os dias é o árduo trabalho para o qual somos chamados.


Isso significa que a verdadeira mudança acontece somente se nós redescobrirmos diariamente o evangelho. O progresso da vida cristã é “não o nosso movimento na direção do objetivo; é a movimentação do objetivo em nossa direção”. Santificação envolve um combate de Deus à nossa incredulidade – nossa recusa egocêntrica em acreditar que a aprovação de Deus para conosco em Cristo é total e definitiva. Isso acontece tanto quanto nós recebemos e descansamos diariamente em nossa justificação incondicional. Como G. C. Berkouwer disse, “O coração da santificação é a vida que se alimenta da justificação”.


O progresso da vida cristã não é o nosso movimento na direção do objetivo; é a movimentação do objetivo em nossa direção


2 Pedro 3.18 sucintamente descreve o crescimento dizendo “Cresçam, porém, na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.” Crescimento sempre acontece “na graça”. Em outras palavras, a verdadeira medida do nosso crescimento não é nosso comportamento (caso contrário, os fariseus teriam sido as melhores pessoas do planeta); é a nossa compreensão da graça – uma compreensão que envolve chegar à mais profunda expressão do incondicional amor de Deus. É também crescimento no “conhecimento do nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo”. Isso não significa simplesmente aprender dos fatos sobre Jesus. Isso significa crescer no amor por Cristo por causa do que Ele já conquistou e garantiu para nós e então viver atento a essa graça. Nosso principal problema na vida cristã não é o fato de não tentarmos arduamente sermos bons, mas no fato de não acreditarmos no autêntico evangelho e não recebermos sua realidade final em todas as partes da nossa vida.


Gerhard Forde de forma perspicaz (e transparente) põe em questão as formas em que nós normalmente pensamos acerca de santificação e progresso espiritual quando ele escreve:


Eu estou progredindo? Se for realmente honesto, me parece que a questão é estranha, quem sabe até um pouco ridícula. À medida que envelheço e a morte se aproxima, eu não pareço estar ficando melhor. Tenho sido um pouco mais impaciente, um pouco mais ansioso sobre talvez ter perdido o que a vida tinha a oferecer, mais lento, com mais dificuldade para me movimentar, um pouco mais sedentário e teimoso em meus caminhos. Eu estou progredindo? Bem, talvez pareça isso, já que eu tenho pecado menos, mas talvez isso só aconteça porque eu estou cansado! É muito pesado se manter tolerando a concupiscência da juventude. Isso é santificação? Não acredito que seja. Não se deve, eu espero, confundir o erro da caduquice com santificação! Mas pode ser, eventualmente, que isso seja, precisamente, um dom incondicional da graça que me ajuda a ver e admitir isso tudo? Espero que sim. A graça de Deus deve nos levar a ver a verdade sobre nós mesmos, e a ganhar certa lucidez, certo humor, e um pouco de “pé no chão”.


Forde certamente mostra que quando paramos de narcisivamente focar na nossa necessidade de melhorar, isso é o que significa ficar melhor! Quando paramos com essa necessidade obcecada de melhorar, isso é o que significa melhorar! Recorde que o Apóstolo Paulo referiu-se a si mesmo como o pior dos pecadores no final de sua vida. Foi a sua capacidade de admitir livremente isso que demonstrou a sua maturidade espiritual – ele não tinha nada a provar ou o que proteger porque não era ele o foco!


Estou percebendo que o pecado que preciso eliminar diariamente é precisamente o meu entendimento narcisista do progresso espiritual. Eu penso demais no que eu estou fazendo, se eu estou crescendo, se estou fazendo certo ou não. Gasto tempo demais ponderando acerca de minhas falhas, ponderando sobre meu sucesso espiritual, e admirado porque, quando tudo está dito e feito, eu não pareço estar melhorando. Em suma, passo muito tempo pensando em mim e no que eu tenho feito, e pouco tempo pensando em Jesus e no que ele já fez. E, ironicamente, o que eu descobri é que quanto mais eu foco na minha necessidade de estar melhor, é ai que o pior começa a acontecer. Eu me torno neurótico e egoísta. A preocupação com o meu desempenho excede a visão do desempenho de Cristo e me faz cada vez mais centrado em mim mesmo e morbidamente introspectivo. Afinal, Pedro só começou a afundar quando ele tirou seus olhos de Jesus e se focou em “como ele estava indo”. Como meu amigo Rod Rosenbladt escreveu para mim recentemente, “Sempre que o nosso foco egocêntrico natural é acuado, abalado, voltado de si mesmo para o sangue DAQUELE Homem, para AQUELA cruz, o diabo é mais atingido”.


Assim, por todos os meios, trabalhe! Mas o trabalho mais difícil não é o que você pensa que é – sua melhoria pessoal e o progresso moral. A ação mais difícil é lavar suas mãos de si mesmo e descansar na obra completa de Cristo por você – que inevitavelmente produzirá melhoria pessoal e progresso moral. O progresso na obediência ocorre quando nossos corações percebem que o amor de Deus por nós não depende do nosso progresso na obediência. Martinho Lutero tinha um ponto: “não é a imitação que faz filhos; é a filiação que faz imitadores”.


A real questão, então, é: O que você irá fazer agora que você não pode fazer nada? Como a sua vida será quando vivida sob uma bandeira aonde se lê: “está consumado”?


O que você vai descobrir é que, uma vez o evangelho te liberta de ter que fazer qualquer coisa por Jesus, você vai querer fazer tudo por Jesus e então “quer comais, quer bebais ou qualquer coisa que fizer” você fará tudo para a glória de Deus.


Esse é o real progresso!


Pr. Tullian Tchividjian

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