sábado, 25 de janeiro de 2014

Herege ou bandido, eis a questão


Já passei por poucas e boas. Um grupo parece ter se articulado com o objetivo de me rotular de herege. Recortaram textos e falas minhas e publicaram em redes sociais. Pareciam abutres famintos. Caso fosse enlameado e jogado na abjeta sarjeta da heresia, eu ficaria à mercê das aves de rapina que povoam a internet. Tive 3 experiências tristes, todas em restaurante. Na primeira, fui sabatinado se ainda acreditava na verdade; na segunda, se passava no crivo da ortodoxia como condição de participar de um grupo de discipulado; na terceira, eu e minha mulher esperamos mais de três horas por um amigo, que não apareceu e nem deu satisfação sobre o porquê do esquecimento.
Depois das decepções, passei a ouvir uma condescendência:  Ricardo, embora discorde de você, eu o considero uma pessoa ética. Não me empolgo nem um tiquinho com esse tipo de elogio. Por uma razão muito simples: ética vale muito pouco no movimento evangélico. O que a pessoa que dizer, na verdade, é que, embora ético, mereço o garrote inquisitorial. Infelizmente, para muitos, quem não repete a reta doutrina evangélica vai para o ostracismo social, difamado e abandonado. Por isso, dispenso o confete ético. Na boca de um ortodoxo, dizer que uma pessoa é íntegra não passa de condescendência; uma acomodação branda, sem valor.
A deformação ética brasileira, percebo estarrecido diante das constantes denúncias de corrupção, não se restringe a religiosos. Ela é histórica. Em nome da governabilidade, qualquer partido que suba ao poder faz alianças esquisitas. Políticos anacrônicos se mantêm poderosos. Parece de menor importância andar de mãos dadas com oligarcas. Entre os protestantes brasileiros, os vícios se repetem. Em nome do mandado missionário, fecham-se os olhos para muito erro. Poucos se importam com falcatruas contábeis, desvio ou lavagem de dinheiro. Toleram-se os ratos desde que se mantenham ortodoxos. Quantos ladrões de colarinho branco ficaram presos nos últimos vinte anos? Quantos líderes evangélicos sofreram por algum desvio contábil?
Um partido não pisca duas vezes antes de se vender ao diabo. Importa eleger o maior número de candidatos. Evangélicos lutam para povoar o céu. É necessário muito dinheiro. Qualquer artifício vale para levantar recursos. Para viabilizar a obra de Deus, o raciocínio vai na linha do capitalismo esnobe: ostentar com megacatedrais, demonstrar força com rede de televisão, viajar de jatinho e evitar o trânsito de helicóptero. Alguns acreditam ser impossível estabelecer o reino de Deus sem filial em Miami. Produtividade comprova o discurso desgastado de que a unção divina leva ao sucesso.
Ninguém se elege no Brasil sem beijar a mão de caudilhos. Do mesmo modo, a grana que financia a megalomania evangélica não cai do céu. O maná dos tempos de Moisés não se repete. Portanto, às favas com os escrúpulos. Nos vários empreendimentos religiosos, a roda tem que girar. Custe o que custar, o show da fé merece horário nobre na televisão.
Não sou pessimista, quero ser realista. A realidade dificilmente vai mudar. Quando repatriam dinheiro da merenda escolar depositado em Paraíso Fiscal, recuperam uma pequena parte apenas. Se provam extorsão ou lavagem de dinheiro em alguma igreja-empresa, nada acontece com o apóstolo ou o bispo. A igreja convoca uma vigília de oração, amarra o diabo e ainda cresce numericamente.
Quando dizem você é herege, mas é íntegro fico em dúvida: a declaração é elogio ou jeito de parecer piedoso? Herege ou bandido, eis a questão. Prefiro ser herege. Por isso, canto com o Chico: Mesmo com toda a fama, com toda a brahma/ Com toda a cama, com toda a lama/ A gente vai levando, a gente vai levando, a gente vai levando/ A gente vai levando essa chama.
Ricardo Gondim
Soli Deo Gloria

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